Na trilha das heroínas de Tejucupapo

Um povoado que fica quase escondido às margens da rodovia PE-049 guarda histórias que são pouco divulgadas em livros, mas que são, sem dúvida, interessantíssimas.

Foi nesse lugar, em 1646, que aconteceu uma batalha entre os invasores holandeses e o povo de uma vila – Tejucupapo, hoje distrito da cidade de Goiana, a cerca de 62 km do Recife.

Referências e homenagens… até no nome de um time de futebol

Na praça principal, a gente vê a Igreja de Nsa. Senhora do Rosário e um monumento representando as mulheres que lutaram contra os holandeses. Há vários outros prédios que fazem lembrar a batalha: até um clube de futebol amador e a Biblioteca pública Maria Joaquina, uma das líderes da resistência no povoado.

Ali por perto está um local onde foram encontrados vestígios da batalha. Mas não é possível a visitação pública, como nos museus e outros sítios históricos, pois fica numa propriedade privada, a Fazenda Megaó.

A imagem a seguir é do Obelisco que fica no inerior da propriedade, no local onde foram encontrados os tais vestígios. Ela foi cedida pelo nosso amigo Rafael Gustavo.

na trilha das heroínas de tejucupapo

São Lourenço e um dos templos mais antigos do país

Porém, já que não pudemos, nesse dia, ver o sítio histórico, partimos pra uma outra parte do distrito, guiados pela informação, vista em livros e sites de história, que o povoado, no século XVII, era formado por umas poucas casas, quase uma praça, tendo ao fundo uma igreja, a de São Lourenço.

Essa igreja faz parte de um conjunto construído no século XVI, pelos jesuítas. Segundo algumas pessoas com quem conversamos, ela dataria do ano de 1555, estando pois, entre as mais antigas do Brasil ainda em atividades.

Hoje, como era de se esperar, a paisagem já está bastante modificada, mas num exercício de imaginação, a gente pode visualizar a Tejucupapo primitiva, como era no tempo da batalha.

Na trilha das heroínas de tejucupapo

A batalha se deu assim

As coisas já não andavam nada bem pros holandeses. No ano anterior, 1645, tinham levado a maior surra no Monte das Tabocas, em Vitória de Sto. Antão e perdido várias outras batalhas.

Isso fez com que as comunicações e a circulação de mantimentos entre seus postos piorasse ainda mais.

Uma tropa que estava nas proximidades do Forte Orange, em Itamaracá, morrendo de fome, conseguiu ir duas vezes até a vila pra roubar os estoques de farinha de mandioca, frutas e pescados que havia por lá. Mas da terceira vez que tentaram fazer isso, se deram mal.

Eles até elaboraram um plano: atacar no dia em que quase todos os homens do povoado saíram pra vender farinha e frutas em Recife.

Assim, só as mulheres e uns poucos homens permaneciam no local. Conta-se que os holandeses e aliados, entre índios e caboclos da região, chegavam ao número de 600 homens. Mas aí uns sentinelas conseguiram avistar os invasores se aproximando pela mata e avisaram aos que estavam no povoado.

Os homens começaram a preparar as armas de fogo que tinham sobrado e as mulheres uniram a comunidade se armando com paus, enxadas, estrovengas e um armamento muito original: água fervente com pimenta malagueta esmagada em pilões pra jogar na pele e especialmente nos olhos dos invasores.

Rapidamente, a comunidade conseguiu armar paliçadas – barreiras feitas com galhos fincados no solo – e cavar trincheiras. Os holandeses tiveram uma recepção à base de tiros, pauladas e muita pimenta. Atormentados e surpresos, sem saber como reagir, bateram em retirada e nunca mais incomodaram os habitantes do vilarejo.

Mas…Tejucupapo realmente aconteceu?

Há controvérsias sobre o acontecimento tal como ele foi chegou até nós, pela tradição oral.

Alguns pesquisadores afirmam que o número de invasores era bem menor do que 600, que no máximo poderiam chegar a 200 e poucos homens, entre holandeses e brasileiros que se aliaram a eles.

Divergências à parte, estudos concluíram que a batalha realmente aconteceu e foi a grande responsável por uma coisa muito rara no estudo da História no Brasil: colocar as mulheres e a gente pobre de um povoado do interior como protagonistas de acontecimentos relevantes.

Uma apresentação de Teatro Popular

Hoje, as mulheres, descendentes daquelas heroínas que lutaram contra os holandeses, fazem uma encenação na fazenda Megaó, “A Saga das Heroínas de Tejucupapo”, sempre no final de abril, pra honrar a memória daquela gente que, na intenção de proteger seus mantimentos e suas próprias vidas, acabaram entrando pra história como um foco de resistência e luta.

Naquele pequeno pedaço de chão, há mais outras grandes histórias. As matas dos arredores foram também palco de lutas dos quilombolas, já no séc. XIX.

Ficamos de voltar em breve pra conferir e trazer muito mais.

PS: Esse post é dedicado ao Valdson, rapaz que ajuda nos trabalhos da igreja de São Lourenço de Tejucupapo, que nos atendeu muito gentilmente, providenciando tudo que a gente precisou.

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