O grito da República

Um resto de parede, lembra um monólito… Na verdade, é a única parte que sobrou de um casarão construído na segunda metade do século XVII, mas ou menos na mesma época do Mercado da Ribeira. Esta ruína converteu-se num monumento que homenageia o “Grito da República” em Olinda.

Nesse lugar funcionava o Senado de Olinda, algo que hoje corresponderia à Câmara de Vereadores da cidade. Depois que foi fechado e o poder legislativo olindense foi transferido pra outro bairro, onde hoje é o prédio da Prefeitura Municipal, ruiu e acabou desmoronando por total falta de cuidados. Sobrou esse resto de parede que parece um monólito com uma placa em forma de estrela.

Nessa placa, inserida na ruína, há a inscrição:

“Aqui, em 10 de Novembro de 1710, Bernardo Vieira de Melo deu o primeiro grito em favor da fundação da República entre nós”

Além da estrela, também foram colocados, já no século 20, duas peças decorativas, uma em cada lado da ruína. Os vistantes geralmente ficam impressionados com a espessura da parede, realmente muito grossa, mesmo para os padrões da época.

Olhando a parte de trás da parede, a gente consegue ver algumas estruturas, mas não dá pra saber o que exatamente é, poderia haver um modo de se andar em volta do monumento, mas há uma grade, pois ele fica nos fundos de uma central da Companhia de Saneamento de Pernambuco e, infelizmente, há sinais de maus cuidados na área.

Mas, então, e essa história, como é ? Quer dizer que Olinda iria se tornar um país, com governo próprio, com um sistema diferente do Brasil?

Mais ou menos isso…

Bernardo Vieira de Melo, o idealizador da coisa toda, teve essa atitude em retaliação ao fato do Recife, até então um distrito de Olinda, mas que havia se desenvolvido bastante depois do período holandês, ter declarado a sua emancipação. Nisso, houve um conflito entre as duas cidades conhecido como “Guerra dos Mascates”.

Essa iniciativa seria então uma forma da nobreza da cidade se manter no poder e não correr o risco de ter de se subordinar às classes dominantes do Recife.

No pensamento de Vieira e dos seus pares não havia espaço pra libertação dos escravos, eles não eram considerados cidadãos. Aliás, ele mesmo participou ativamente do extermínio do Quilombo dos Palmares e foi responsável pela morte de mais de 400 negros. Como a escravidão era considerado algo normal pra aquela sociedade, o então vereador de Olinda nunca foi punido por isso.

As punições só vieram em 1712 e por motivos bastante diferentes. A Coroa Portuguesa interveio pra acabar com a tal Guerra dos Mascates e confirmou Recife como uma cidade independente de Olinda. De quebra, mandou prender Bernardo Vieira de Melo por crime de “lesa-majestade” e “inconfidência”, acabando com os seus planos.

O acontecimento é um tanto quanto romantizado: dia 10 de Novembro é feriado municipal, comemorado na cidade com desfiles e bandas marciais.

De qualquer forma, vale a pena uma visita a esse monumento importante na cidade e uma reflexão sobre seus significados. Ele fica em um local aberto, bem pertinho do Mercado da Ribeira, no Sítio Histórico de Olinda.

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