Da Pasárgada à Manguetown

Continuamos hoje na Rua da Aurora, às margens do Rio Capibaribe, no Recife. Não precisamos nos deslocar muito e já podemos ver dois pontos bastante interessantes desse trecho da rua.

A Pasárgada

Um que faz uma homenagem a Manuel Bandeira, autor de “Vou-me embora pra Pasárgada”, entre outros grandes clássicos da literatura brasileira, e outro, que é uma referência a uma movimentação cultural que abalou Pernambuco nos anos 90: o Manguebeat.

No ano de 2016 comemora-se os 130 anos de nascimento do poeta Manuel Bandeira. Entre mudanças pra o Rio de Janeiro e até São Paulo, ele passou apenas alguns anos de sua infância como morador do Recife. Porém, esse tempo foi suficiente forte pra marcar sua obra em todas as fases, desde o chamado “modernismo de 1922” até o fim de sua vida, em 1968.

Bandeira cita a Rua da Aurora em vários dos seus poemas. “Cotovia”, por exemplo, contém um fragmento que inspirou diretamente a construção do monumento em sua homenagem nesse local.

– Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.”

Uma escultura feita de concreto, em tamanho natural, mostra o poeta como se estivesse sentado à beira do terraço de um casarão, pensativo, desconfiado, um tanto melancólico, como os seus contemporâneos e biógrafos afirmam que ele era.

Vale lembrar, porém, que o poeta não morou na Rua da Aurora e sim na da União, por trás da rua onde está o monumento, na casa de um de seus avós. O arco em torno da estátua lembra os que estão nas janelas da fachada dessa casa que abriga, desde 1986, ano do centenário de Bandeira, o “Espaço Pasárgada”, que será tema de um post aqui no Reverso em breve.

caranguejo

A Manguetown

Ali bem ao lado, está uma escultura que homenageia o Manguebeat, que também é conhecido como “Manguebit”: uma efervescência cultural de pernambuco que teve seu auge nos anos 90.

Não era um movimento no sentido mais comum da palavra, era uma movimentação, como faziam questão de lembrar algumas de suas figuras de destaque.

Também não tinha um líder, eram vários artistas fazendo seus trabalhos ao mesmo tempo.

Tinham sim uma linha em comum: se inspirar nas tradições culturais pernambucanas, misturando isso ao que acontecia de mais arrojado no contexto cultural internacional e apesar de não ter um líder, a movimentação teve em Chico Science uma figura que talvez resumisse aquelas ideias e ideais todos.

Francisco de Assis França transitou por várias bandas e grupos de dança e de hip-hop nos anos 80, até encontrar outros artistas com quem formou a “Chico Science e Nação Zumbi”.

O ano de 2016 é emblemático: marca o aniversário de 50 anos de nascimento de Science (morto em um acidente de carro em 1997) e os 20 anos de seu último em vida, o disco “Afrociberdelia”.

O Caranguejo gigante foi projetado pelo artista plástico Augusto Ferrer, em parceria com a arquiteta Lúcia Cardoso, já chegou a ser bastante colorido com grafitagens, mas, depois de uns reparos, foi pintando de cinza, o que desagradou a muita gente mas acabou agradando  seu idealizador, que achou acertada a decisão por remeter melhor aos caranguejos no ambiente do mangue quando ficam completamente cobertos pela lama cinzenta.

Esses foram mais alguns atrativos da Rua da Aurora, como dizia Gilberto Freyre: “Uma das ruas mais caracteristicamente recifenses: talvez a mais recifense. É de todas a mais cortejada pelo Capibaribe.” Na próxima semana, a gente conclui esse passeio por ela. Então, não sai daí.

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