Central do Brasil

Há 20 anos apareceram pessoas diferentes em Cruzeiro do Nordeste. Tiraram umas fotos, falaram com um e outro e foram embora sem dar maiores explicações.

No começo do ano seguinte, retornaram, dessa vez em comboio. Agora sim disseram o que vieram fazer naquele lugar: preparariam o povoado pra se tornar cenário de um filme: Central do Brasil.

Lembranças de um grande set de cinema

O pequeno distrito da cidade de Sertânia, a 300 Kms do Recife, na encruzilhada entre a BR 232 e a 110, se tornou Bom Jesus do Norte na ficção e seu povo vivenciou momentos pelos quais com certeza nunca imaginou passar.

Foram meses no meio de uma produção cinematográfica, onde tudo anda em ritmo acelerado, os prazos são apertados e as coisas têm de estar todas em seus lugares.

Quem nos guiou por esta viagem pelo tempo e as memórias foi Fred Francisco, que trabalha no posto às margens da estrada. Ele, na época um garotinho de 11 anos, fez uma figuração no filme e recorda com detalhes as locações, as pessoas, contando com um aparente orgulho o que se passou no seu distrito.

Fred falou sobre o convívio com o diretor Walter Salles, o contato com Fernanda Montenegro e a amizade com Vinícius de Oliveira, o menino Josué do filme, que tem a mesma idade que ele. Também nos mostrou os locais onde foram feitas várias cenas.

O monumento com o Pe. Cícero, onde acontece um importante diálogo. Uma praça onde que foi montado um guichê de rodoviária, um salão de cabeleireiro e outras estruturas temporárias. A “casa 07” que serviu de camarins usados pelas pessoas do local e pela própria Fernanda Montenegro.

O lajedo onde foi feita uma cena cuja imagem correu o mundo aparecendo em materiais de divulgação, onde Dora, personagem de Fernanda Montenegro, acorda nos braços do menino após ter desmaiado na noite anterior.

A noite do Oscar e a fama passageira

Em 1999 o filme concorreu ao Oscar de melhor “Filme Estrangeiro”  e Fernanda Montenegro, de Melhor Atriz. Na noite em que aconteceu a cerimônia de entrega do prêmio, a população inteira, que somava naquela época 600 e uns habitantes, se reuniu na frente de um telão montado no pátio do posto, todos com velas acesas exatamente como estavam em uma das cenas mais famosas do filme.

O Oscar acabou não vindo. Mas tudo aquilo criou um grande frenesi na região. As filmagens trouxeram um sucesso meteórico a Cruzeiro do Nordeste, porém, ele foi passageiro.

Ao menos que você tenha a sorte de encontrar o Fred de folga do posto ou outra pessoa que possa te guiar e mostrar os locais do filme, vai ficar tirando fotos a esmo. Muita coisa mudou de lugar e não existem indicações, placas, nem nada.

Cruzeiro do Nordeste (não) virou Central do Brasil

Até houve tentativas pra se viabilizar a atividade turística por lá: Foi projetada a construção de um memorial. Algo que seria como um pequeno museu, com algumas estruturas remanescentes e fotografias, mas isso nem sequer foi iniciado. Alguns vereadores do município de Sertânia fizeram uma proposta pra mudar o nome do povoado pra homenagear o filme, porém, a iniciativa não vingou.

Até o dono do posto de gasolina chegou a batizar o estabelecimento com o nome da produção, mas logo ficou decepcionado e recolocou o nome anterior.

Sim, chegou água encanada, eletricidade, calçamento e várias melhorias no povoado, sejamos justos, mas as carências continuam sendo muito grandes.

Hoje, Cruzeiro do Nordeste, onde foram gravadas a maioria das cenas de Central do Brasil, é mais um povoado pacato, com pessoas simpáticas e acolhedoras e é rota de passagem pra caminhoneiros, gente que viaja a trabalho e turistas que vão a Triunfo, Serra Talhada, Petrolina e outras cidades do sertão de Pernambuco.

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