Alfândega do Recife – de convento a shopping

O prédio secular no Bairro do Recife Antigo que já foi um convento, abrigou a Alfândega do Recife, armazéns do porto e onde hoje funciona um Shopping Center. Vamos conhecer suas histórias no post de hoje do Reverso.

A área no tempo dos holandeses

Nos mapas da época da dominação holandesa, essa parte da capital pernambucana terminava um pouco mais além da Ponte Maurício de Nassau, só um pouquinho mais. O que havia ao redor eram mangues e demais áreas alagadas, onde não existia construção nenhuma. (Veja na imagem*)

Recife-Map1665

A área que visitaremos no post de hoje começou a ser ocupada bem depois da expulsão dos holandeses em 1654. Assim como em várias outras partes que formaram o  atual Bairro do Recife, os aterros se intensificaram e foram fazendo a região ficar mais larga e crescendo pro lado sul.

O convento

Em 1732 foi inaugurado ali o Convento dos Oratorianos da Ordem de São Felipe. A fachada com contornos retilíneos, sóbrios, quase que com um aspecto de fortaleza ainda guarda muitos traços da construção original.

Ao lado fica a Igreja da Madre de Deus. Ela foi concluída em 1720 e sua estrutura é composta por pedras retiradas dos diques originais que ficavam onde é hoje o Parque das Esculturas de Francisco Brennand lá no Marco Zero. A igreja era ligada à morada dos padres até o dia em que o convento foi desativado.

A alfândega

O prédio deixou de ter a função de abrigo dos padres em 1826 e passou a servir como Alfândega. A movimentação no porto nessa época era feita desse lado do bairro também. Por isso mesmo é parte dele foi demolido pra dar lugar a uma rua, separando os corredores e demais passagens, afinal, não fazia sentido uma igreja conjugada com uma repartição pública onde se fiscalizava a entrada e saída de mercadorias.

Era grande a quantidade de embarcações que se movimentavam e atracavam por ali. Tanto é que toda a parte da frente do prédio, voltada pra a área onde desemboca o rio Capibaribe junto com o Beberibe rumo ao mar, era atopetada de pequenos comércios, eles avançavam até mesmo alguns metros pela água formando palafitas.

Alguns anos depois, o prédio foi doado à Santa Casa de Misericórdia. As atividades do porto foram transferidas totalmente pro lado oposto do bairro, e um edifício específico pras atividades dos navios e de suas cargas funcionado ali não era mais necessário.

Já na década de 1920, o espaço sofreu um grande incêndio e depois de recuperado foi transformado em armazém.

As marcas do tempo, de todas essas transformações pelas quais a construção passou, mesmo mantendo suas características básicas, estão pelas fachadas na frente e dos lados: a marcação das portas do armazém, o Brasão de quando o sistema de governo brasileiro mudou de Império pra República… é possível ver esses rastros da história nas paredes externas.

Com o passar do tempo, essa região do Recife foi se degradando. Acabou se tornando um lugar apenas pra atividades ligadas ao porto e um dos pontos de passagem da zona central pra zona sul recifense e pra cidade de Jaboatão dos Guararapes. Não havia movimento de visitantes por ali, embora aquele pedaço da cidade guardasse as histórias das origens mais remotas da capital pernambucana.

O Shopping

Apenas entre o final do século XX e o começo do século XXI é que alguns projetos de revitalização da região, como os que reconfiguraram o Marco Zero, começaram a ser implantados visando a exploração turística do Bairro do Recife. Também foram feitas escavações arqueológicas, onde foram encontrados restos das primeiras construções da área, além de objetos de uso cotidiano.

Durante o Carnaval, na Avenida da Alfândega, que fica na parte voltada pra onde o rio desemboca e onde ficavam os pequenos armazéns e as palafitas, acontece um dos maiores festivais de música independente do Brasil, o RecBeat.

Em 2017 já será realizada sua 22ª edição. É um festival alternativo, se caracteriza por trazer nomes da música contemporânea nacional e internacional que fogem um pouco do estilo que é tocado tradicionalmente durante as festas do período momesco.

É ali também onde está a escultura do poeta Ascenso Ferreira. Assim como a de Manuel Bandeira, que conhecemos na Rua da Aurora, ela faz parte do conjunto de estátuas de escritores em vários pontos da cidade. Há um poema intitulado “Noturno”  em que esse autor faz referência ao Recife Antigo:

“Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou…
criança de novo
eu sinto que sou:

— Larga de ser vagabundo, Ascenso!”

O lugar também é utilizado pra eventos menores, como corridas de rua e gravações de produções audiovisuais

A igreja da Madre de Deus foi restaurada e o prédio onde funcionou a antiga repartição foi recondicionado pra receber as instalações de um Shopping Center com lojas de confecções, joalherias e lanchonetes, um lugar mais voltado pra a classe média.

No armazém que ficava ao lado, hoje funciona uma unidade de uma famosa rede de livrarias.

Há algumas adaptações nas paredes e janelas pro funcionamento de passarelas, refrigeração do ar e outros ambientes próprios do Shopping e da livraria, mas o prédio permanece basicamente com as características e modificações que foi sofrendo desde o século XVIII até os anos 1920.

O edifício histórico, próximo de completar 300 anos, a igreja e toda essa parte do Bairro do Recife são pontos ideais pra um final de semana pela tarde. Marco Zero, Rua do Bom Jesus, fica tudo ali pertinho. É uma ótima pedida pra quem quer conhecer a história da capital pernambucana.

*Imagem: Carta gráfica em aquarela da cidade do Recife (Brasil) no século VXII – Jan Vinckeboons – 1665. Domínio Público

Participe, comente esse post: