Histórias (quase) perdidas pte. IV – Recife Antigo

No bairro do Recife Antigo, nem tudo é tão antigo assim.

Apesar de aqui ter sido o primeiro foco de povoação da capital de Pernambuco, quando ela ainda era uma vila de pescadores com um porto para atracação de navios que traziam produtos para Olinda e nem era a capital, lá no século XVI, grande parte do bairro foi posta abaixo por demolições feitas pra reforma do porto e a abertura de novas avenidas, entre a segunda metade do século XIX e até mais ou menos os anos 1920.

Fragmentos de antigas portas da cidade

Porém ainda restam fragmentos de um tempo em que a cidade estava apenas começando a tomar as feições do que iria se tornar mais tarde.

Em um deles está a história que vamos conhecer hoje.

Após terem tomado a região do porto, os invasores holandeses sentiram a necessidade de proteger alguns armazéns que existiam por ali e promover uma melhor organização do espaço pra que pudessem se proteger melhor, pois ao mesmo tempo em que consolidaram a invasão, acontecida em 1630, começaram também a sofrer a resistência dos pernambucanos e portugueses.

Como vimos no post sobre a Rua do Bom Jesus, a administração dos invasores tomou providências, arrendando terrenos pra particulares e fazendo uma paliçada (cercas de madeira reforçada) em todo o perímetro do território, que nessa altura, não passava de um pedaço de terra de cerca de 90 por 300 metros.

Com a chegada de Maurício de Nassau, em 1637, os holandeses decidiram que seria hora de construir uma muralha ao redor do bairro.

Sabe aqueles filmes de cavaleiros medievais, onde tem um grande portão de madeira, que é aberto pelos guardas pra deixar passar as pessoas pro lado de dentro, onde geralmente há um castelo? Era mais ou menos assim que funcionava essa muralha com suas três portas.

Uma delas era voltada pro lado norte da cidade, no caminho pra Olinda. Era a chamada Porta de Terra, também conhecida como “porta do bode” pois ela dava pro começo da “rua do bode”, o apelido da rua dos Judeus, atual rua do Bom Jesus.

As redescobertas

Em 2001, durante escavações do projeto Luz e Tecnologia, que tinha como objetivo embutir a fiação elétrica do bairro, foram encontrados os restos da muralha que ficava bem ao lado da Porta de Terra.

Além das muralhas, as fundações de um antigo templo

Além do trecho de muralha e objetos de uso cotidiano como pratos e cachimbos, também foram encontradas as bases de uma igreja que existiu no local, a Matriz do Corpo Santo.

Ela foi implantada alguns anos depois da rendição dos holandeses em 1654. Os luso-brasileiros modificaram vários nomes de lugares e construíram templos católicos em locais que antes tinham sido ocupados pelos holandeses que eram calvinistas e tinham aliança com os israelitas. (por isso mesmo a mudança do nome da rua do Bom Jesus, que antes era Rua dos Judeus).

Tanto o trecho de muralha quanto a igreja, tudo foi posto abaixo por causa de obras pra ampliação do porto do Recife e a ligação entre a rua do Bom Jesus com os armazéns.

Ainda houve protestos na câmara provincial de Pernambuco, mas a destruição foi feita. Salvaram-se algumas imagens de santos, que foram levadas pra igreja da Madre de Deus, no Cais da Alfândega.

Hoje é possível visitar as ruínas e ter uma ideia de como era a cidade naquele tempo, cercada por muralhas. O mar, que hoje está a mais de 60 metros de distância, quebrava ali, muito antes de existir a praça do Marco Zero.

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