O Paraíso Terreal e outros causos

No ano de 1811, quando a cidade de Bonito apenas começava a tomar as feições que teria mais tarde, chegou por aqueles lados um ex-soldado de nome Silvestre que tinha desertado do 12º batalhão das milícias de Alagoas.

Um novo líder espiritual

Não se sabe muita coisa sobre ele. Onde nasceu, como foi parar em Bonito… Mas Silvestre conseguiu reunir em torno de sua figura um grande número de miseráveis que vagavam pelos sertões e fundou o “Reino do Paraíso Terreal”, no sopé de uma grande montanha conhecida como Pedra do Rodeador, a cerca de 9 quilômetros do centro da cidade.

Hoje em dia, a pedra está em uma propriedade particular e é lá que fica um hotel que dispõe de áreas para recepções, casamentos, eventos de confraternizações de empresas, além da prática de caminhadas, esportes de aventura e demais atividades relacionadas ao Ecoturismo.

A pedra e um dos primeiros movimentos populares messiânicos do Brasil

A imponente rocha de 300 metros de altura fica entre outros morros e vales com pequenas e grandes plantações e coberta por fragmentos de Mata Atlântica… É realmente uma visão impressionante.

Porém, no começo do século XIX, o vale era extremamente difícil de ser acessado. Existiam estradas de terra e trilhas na mata. Mesmo assim, conta-se que cerca de 150 cabanas de madeira e palha foram construídas naquele local.

Essas cabanas formaram nada mais nada menos do que uma das primeiras comunidades messiânicas sebastianistas de que se tem notícia na história do Brasil. Mais de 50 anos antes do movimento do Arraial de Canudos, na Bahia e quase 100 anos antes da Revolta do Contestado, que ocorreu entre 1912 e 1916, no sul do país.

Os movimentos messiânicos eram um conjunto de crenças que misturava o catolicismo com rituais e superstições populares. Mas na verdade mesmo, era um grito de revolta e uma busca pela fuga da realidade miserável e opressora na qual os sertanejos viviam.

E muitos deles eram sebastianistas por que se baseavam na figura de um antigo rei de Portugal, D. Sebastião, que desapareceu numa batalha no Marrocos, no século XVI.

Havia a crença de que esse rei voltaria pra corrigir as injustiças do mundo, fazer com que os habitantes do vilarejo se tornassem ricos e os seus líderes, verdadeiros príncipes na terra. E era exatamente da pedra que sairia D. Sebastião com seus exércitos, na visão de Silvestre.

O dramático desfecho do movimento

Acontece que em 1820 as autoridades do governo de Pernambuco souberam do caso e decidiram não economizar esforços pra acabar com a comunidade da Pedra do Rodeador.

Suas tropas atacaram de madrugada e lá pelas tantas, já depois de muito tiroteio, o comandante da missão mandou que os soldados queimassem todas as cabanas…

Os relatos dão conta de que ainda havia muita gente dentro delas.

Barragem de Serro Azul e a história em torno da sua construção

Seguimos pela estrada. Agora estamos quase na divisa com a cidade de Palmares, a 23 quilômetros do centro de Bonito, depois da cachoeira do Véu de Noiva, que visitamos no post passado.

Por essas terras está sendo construída a Barragem de Serro Azul.

Essa obra visa o abastecimento de água pra várias cidades pequenas da Zona da Mata Sul de Pernambuco e também o controle do fluxo de água do rio Una, que causa enchentes e afeta profundamente cidades como Palmares, que é um dos polos econômicos da região.

O aspecto da paisagem em volta é de um imenso canteiro de obras, pois as construções já vem se arrastando desde o ano de 2011 e os prazos pra conclusão foram todos estourados. Agora, no segundo semestre de 2016, ela já deveria estar pronta, mas, como se vê, parece que ainda falta um monte de coisa pra ser feita.

Obras desse tipo costumam impactar severamente o meio ambiente e muitas vezes, construções importantes. A barragem, mesmo ainda por ser concluída, já fez uma “vítima”: o Engenho Verde.

A Casa Grande, hoje em ruínas, foi construída no século XVIII e reformada em 1841, tendo como arquiteto Louis Vauthier, o mesmo do Teatro Santa Isabel, na Praça da República, em Recife.

Entre outras coisas, serviu de ponto de apoio aos rebeldes da Revolução Praieira.

Esse movimento, aconteceu entre 1848 e 1850 e, apesar de não lutar pelo fim da escravidão no Brasil, defendeu propostas interessantes como o Voto Universal, a liberdade de imprensa e a reforma do Poder Judiciário, de modo a garantir direitos individuais.

O casarão também tinha um significado pra a literatura e o teatro brasileiro, pois foi lá que nasceu Hermílio Borba Filho.

Segundo estudos de arqueólogos e técnicos em outras áreas, não há como a Casa Grande ficar fora do espaço que será ocupado pela água, quando a barragem estiver com toda a sua capacidade.

O projeto, através de seus Estudos de Impactos Ambientais, garante que não haverá prejuízos pra as cachoeiras de Bonito. Ouvimos pessoas que confirmam essa informação. Assim mesmo há movimentos na cidade que contestam esses estudos, afirmando que eles não são confiáveis o suficiente.

Seja como for, é necessário que as coisas sejam feitas com a maior responsabilidade, pois o turismo rural representa muito pra cidade de Bonito e região. Emprega direta e indiretamente e não pode ser prejudicado.

E assim nos despedimos dessa cidade, de suas belezas naturais, de suas histórias e de sua gente. Um dia, quem sabe em breve, voltaremos pra fazer as trilhas e mostrar as atrações a que não tivemos acesso dessa vez.

Bonito e região, definitivamente, valem a visita. Conheça mais e melhor essas localidades. Com certeza, não se arrependerá.

 

Fontes: A Rebelião Sebastianista na Serra do Rodeador. Pernambuco, 1820. – Flávio José Gomes Cabral. Dissertação para obtenção do Grau de Mestrado – UFPE, 2002.

Relatório de Impactos Ambientais da Barragem de Serro Azul — Instituto de Tecnologia de Pernambuco / Unidade Gestora de Projetos Barragens da Mata Sul, 2011.

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