Porto Calvo: Calabar e outros personagens

Depois de conhecer alguns lugares na cidade serrana de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, vamos pra Alagoas, até uma cidade histórica. Conheceremos Porto Calvo: Calabar e outros personagens.

Podemos chegar lá pela Rodovia Estadual AL – 465, fica a 30 quilômetros de Maragogi e a 100 km de distância da capital Maceió.

As origens da cidade: o porto e o senhor calvo

Porto Calvo foi um dos primeiros lugares no estado de Alagoas a ser colonizado pelos europeus ainda no começo do século XVI.

Isso se deve a um alemão de nome Christoph Linz von Dorndorf, que aqui no Brasil virou Cristóvão Lins. Ele explorou o litoral norte alagoano e algumas regiões próximas, expulsando os índios e se apossando das suas terras.

Duarte Coelho, que nessa época governava a capitania de Pernambuco (que incluía o atual território de Alagoas), percebeu que Lins além de não ser um perigo pra a colonização, poderia ser um belo de um aliado.

Comunicou a situação ao rei de Portugal que acabou nomeado o alemão “alcaide-mor” (algo que hoje poderia ser comparado a um prefeito) daquela região e Lins recebeu não só a posse da terra que havia explorado, mas também outras, onde fundou engenhos de cana-de-açúcar.

A cidade tem esse nome por causa de uma lenda que dizia que um velho calvo, que morava às margens de um dos quatro rios da região tinha um porto: “O porto do calvo”. Algumas vezes ainda tentaram mudar o nome da cidade pra Bom Sucesso, mas a lenda foi mais forte e o nome permaneceu.

De qualquer forma, há mesmo um porto por lá. O Varadouro do rio Manguaba. Em tempos antigos, esse local servia pra transporte de cana-de-açúcar e mantimentos pra outros pontos mais próximos do litoral. E pro contrabando de mercadorias mais valiosas também.

Há um conjunto de esculturas de concreto que mostram o movimento de cargas no porto. A cena pode ser também uma boa representação de como era a sociedade na época colonial, onde negros escravos carregavam todos os fardos e os senhores curtiam, sentados em barris de vinho e sacas de cana-de-açúcar.

A partir desse porto é possível fazer o trajeto até Porto das Pedras onde o rio desemboca no mar. O percurso é de cerca de 25 km e é feito geralmente em barcos a motor onde cabem até 8 pessoas.

O passeio pode sair em média a R$ 150,00 e é preciso ter contato com algum pescador do lugar. Há projetos pra se profissionalizar o turismo em Porto Calvo, que anda um tantinho incipiente. O que realmente seria uma boa, pois além de ser um sítio histórico, as paisagens são belíssimas.

A igreja matriz da cidade e alguns mistérios

Rumo à parte alta da cidade, temos uma verdadeira relíquia: A igreja matriz de Nsa. Sra. da Apresentação, erguida em 1610.

O templo já sofreu várias modificações desde sua fundação. Recentemente pesquisas arqueológicas foram feitas ali pra tentar desvendar como poderia ser a área há 400 e tantos anos passados.

Há vestígios de um cemitério onde eram sepultados membros das ordens religiosas e também sacerdotes, porém, nessa igreja não há mais o uso do espaço pra enterros.

É o oposto do que acontece em S. Bento, em Maragogi, onde a igreja já tombou mas ainda hoje as pessoas das comunidades próximas usam o local pra enterrar os seus mortos.

Por trás da igreja há um belo casarão onde funciona a Fundação de Cultura da cidade.

porto calvo, calabar e outros personagens

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Perto dali, há um lugar conhecido como o Alto da Forca. É pra lá que nós vamos, pra conhecer melhor a história do principal cidadão portocalvense, uma das figuras mais controversas da história do Brasil.

O encontro com o personagem mais famoso de Porto Calvo

Domingos Fernandes Calabar nasceu em 1609. Há indícios de que ele foi criado pela mãe, de quem não se tem quase nenhuma informação a não ser que ela poderia ter sido uma negra ou então índia.

Conseguiu vaga pra estudar com os jesuítas e, chegando à idade adulta, fez fortuna com o contrabando, sendo também um proprietário de terras.

Eis que chega a invasão holandesa ao Brasil em 1630, Olinda é incendiada, Recife dominado.

Calabar, já um senhor de engenho, se alia à resistência luso-brasileira pra lutar contra os holandeses junto com Matias de Albuquerque.

Mas logo em 1632, insatisfeito com o tratamento que era dado aos colaboradores da resistência, Calabar começou a refletir sobre a situação e chegou à conclusão que a presença dos holandeses seria mais benéfica do que a portuguesa à colônia.

Então foi aí que ele passou a lutar do lado holandês, aliás, foi muito bem recebido, ganhando logo uma alta patente.

Os historiadores contam que a presença de Calabar foi decisiva pra que os invasores conquistassem territórios na Paraíba e no Rio Grande do Norte.

Porém, no ano de 1635, o alagoano acabou sendo capturado por combatentes luso-brasileiros, contra os quais travava uma batalha, ali mesmo na sua cidade natal. Foi preso e conduzido até uma fortaleza que defendia a cidade na batalha.

Foi condenado a morte por garroteamento (quando se amarra o pescoço da vítima a uma estaca e as cordas são puxadas, causando a morte por estrangulamento) Hoje, esse é o lugar onde fica o Alto da Forca.

É aí que está o Memorial de Calabar. Há um conjunto de estátuas de concreto descrevendo as duas últimas cenas de sua execução. O transporte do condenado até o lugar onde iria ser morto e a cena do garroteamento.

No local também há um mirante de onde se pode observar a cidade toda, as matas, as plantações e os caminhos por entre os morros.

Há muitas discussões sobre a figura de Calabar na história brasileira. Ele é execrado por muitos como um traidor da pátria, um entreguista, que facilitou a vida dos invasores holandeses. Pra outros, ele seria um herói, pois seguiu seus ideais e sua mudança de lado comprovaria o quanto os luso-brasileiros eram cruéis e interesseiros.

O mito do “melhor colonizador”

Também é comum, em algumas grandes cidades do Nordeste, principalmente aquelas que sofreram mais a influência direta da invasão holandesa, como Recife, por exemplo, nos meios acadêmicos e até entre a população, a ideia de que a colonização dos batavos seria melhor do que a lusitana.

O pessoal da Companhia das Índias Ocidentais seria mais inteligente e humano no trato com a população local e, por isso, os holandeses deveriam ter permanecido no Brasil.

É uma discussão subjetiva, ou seja, cada um tem suas opiniões. Porém, pra nós parece não haver evidências que comprovem que o Brasil seria mais próspero com esse ou aquele colonizador. Até por que a lógica colonial era explorar, tirar recursos pra levar pra metrópole.

E quanto a Calabar ser um traidor ou um herói, talvez o mais certo seria deixar de maniqueísmos, pois ele não foi nem uma coisa nem outra.

No contexto da guerra entre luso-brasileiros e holandeses, era muito mais comum a troca de lados do que se imagina. Muita gente virou a casaca ao perceber que o seu ponto de vista não era favorecido ou por que teria alguma boa recompensa se fosse lutar do lado do inimigo.

Conheça Porto Calvo

Seja como for, é interessante a ida até Porto Calvo. Lá você pode ter contato direto com histórias dos primórdios da colonização. É uma cidade tranquila e de fácil acesso, que fica pertinho de Maragogi e de outros locais com atividade turística mais intensa.

Portanto, quando for à Alagoas, não fique apenas nas praias com suas piscinas naturais, visite também Porto Calvo.

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