Bairro de Guadalupe: Olinda entre o sertão e o México

O bairro de Guadalupe, no Sítio Histórico de Olinda, certamente é um dos mais pobres dessa área. Nas suas redondezas não se encontram os ateliês, bares cheios de arte e outros atrativos de bairros como Amparo ou o Carmo.

Mas, apesar disso, é lá que ficam alguns dos tesouros mais valiosos da cidade. No post de hoje do Reverso do Mundo, vamos passear um pouco por esse bairro e conhecer dois lugares da mais alta importância histórica e cultural.

A última grande igreja de Olinda

Uma deles é a igreja de Nossa Sra. de Guadalupe. Ela começou a ser construída em 1626 e foi inaugurada três anos depois, em 1629, pouco menos de um ano antes da chegada dos invasores holandeses a Pernambuco.

Nossa Senhora de Guadalupe foi, portanto, a úlima igreja em grandes proporções que foi construída em Olinda antes da tomada da capitania de Pernambuco pelo invasor.

A Virgem de Guadalupe não é tão homenageada com igrejas aqui no Brasil, há alguns templos em outras cidades do país, mas são muito poucos se comparados a outras “Nossas Senhoras”.

O México em Olinda

O culto à Nossa Sra. de Guadalupe em terras brasileiras foi uma das grandes influências da chamada “União Ibérica”, que durou de 1580 a 1640. Ela foi uma unificação dos reinos de Portugal e da Espanha, provocada pela morte do Rei D. Sebastião, em 1578.

Com a morte do rei português, o trono ficou vago e quem assumiu foi o espanhol Felipe II, que era neto de um antigo rei luso, D. Manuel I. Com isso, a Espanha, que já controlava o México, grande parte das ilhas caribenhas e os outros Países da América do Sul, passou a ser metrópole também do Brasil.

A igreja de Nossa Sra. de Guadalupe em Olinda é o templo mais antigo do Brasil em honra dessa santa e uma das últimas (senão a última) construção de grande porte inaugurada nessa cidade antes da invasão holandesa.

Isso porque, no ano de 1631, Olinda seria saqueada e incendiada pelos flamengos, passando por um período de quase abandono, até a expulsão dos invasores, em 1654.

A igreja é grande e muito simples. Ela foi construída num local que no século XVII ficava quase fora dos limites da cidade.

Não tem todos aqueles adornos de outras igrejas olindenses, como o Mosteiro de São Bento ou o Convento de São Francisco. Tem apenas uma torre em forma retangular, sem uma cúpula como as outras igrejas barrocas.

No centro do altar principal, um quadro com uma moldura de madeira ricamente trabalhada, ali vemos uma reprodução da imagem de Guadalupe, que foi um presente dado pela Igreja Católica do México.

Próximo da porta da entrada, de um lado onde há um corredor que dá ao acesso à sacristia, outra relíquia. A lápide daquele que teria sido o fundador da igreja: Manuel de Carvalho.

Não há muitas informações sobre quem teria sido esse homem. Só que ele era um dos líderes da Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe, fundada em 1627 e que existe até hoje.

A placa está escrita do modo como se fazia na época, ou seja, caracteres fundidos uns nos outros, o “U” confundindo-se com o “V”, palavras abreviadas… Mas com um pouco de paciência, é possível decifrar alguma coisa.

olinda entre o sertão e o méxico

O Coco de Umbigada e o bairro hoje

Saindo da Igreja, dando uma volta pelo pátio e pelos arredores, podemos ver que o bairro de Guadalupe realmente é bem distinto da parte mais conhecida e divulgada do Sítio Histórico de Olinda: Sem ateliês com placas pintadas, janelas coloridas, azulejos nas paredes. Sem restaurantes ou bodegas estilizadas. Nada disso.

Porém, ali é um lugar de intensa movimentação de cultura popular. Perto da Igreja, temos um Ponto de Cultura: o Coco de Umbigada.

Além de promover festas com danças e ritmos como o próprio Coco, a instituição também realiza atividades socioeducativas, como oficinas e cursos na área de música e cultura e também rádio e Software Livre.

No Carnaval, muitos blocos e troças saem do pátio do Guadalupe. Inclusive os famosos bonecos gigantes de Olinda fazem sua concentração e começam seu desfile pelas ladeiras da cidade a partir desse local.

olinda entre o sertão e o méxico

Num dos lados do pátio fica a sede de uma troça que certamente não é tão conhecida assim por quem não frequenta o Carnaval. Mas é muitíssimo importante. Talvez não seja exagero nenhum dizer que sem ela não existiria o célebre Homem da Meia-Noite.

A troça carnavalesca mais antiga de Olinda

Estamos falando da Troça Carnavalesca “O Cariri Olindense” que foi fundada em 15 de fevereiro de 1921. Ela é a agremiação carnavalesca mais antiga de Olinda que permanece em atividade.

Conta-se que já existiam planos de fundar uma troça pro Carnaval de Olinda naquele tempo, porém, os jovens que estavam à frente dessa iniciativa ainda não tinham uma ideia muito clara sobre como ela iria ser.

Até que um dia, foram até o Mercado de São José, no Recife, comprar tecidos e algumas outras coisas, como chapéus e enfeites variados pro Carnaval e deram de cara com um senhor de longas barbas brancas que vendia ervas no lugar.

Ninguém sabia o nome do homem, apenas o chamavam “Cariri”, pois ele teria vindo de alguma cidade do sertão do estado. Os jovens se aproximaram dele e lhe contaram sobre a ideia da troça, pedindo permissão pra usar a sua imagem como motivo pra uma fantasia. Dizem que conseguiram até uma foto do senhor, o que não era coisa muito fácil nessa época.

Ao voltar pra Olinda, criaram um personagem baseado na imagem do Cariri lá do Mercado, com uma roupa igual à da foto que tinham conseguido. Além disso, fizeram um estandarte e colaram a tal fotografia nele.

Desde então a troça sai sempre no domingo de Carnaval, às 4 horas da manhã. Curiosamente, no estandarte, que já é outro completamente diferente, há uma cópia da foto de 1921.

E é aí que entra a história do Homem da Meia-Noite. Ele foi uma dissidência do Cariri.

Em 1931, alguns dos membros da troça de Guadalupe brigaram, alguns deles saíram e resolveram criar outra agremiação que viesse a desbancar a mais antiga.

Uma das medidas tomadas pela nova agremiação pra superar a sua rival foi justamente sair em desfile à meia-noite. Assim, abrindo o Carnaval da cidade. O Cariri permaneceu saindo às quatro horas.

olinda entre o sertão e o méxico

Muitos anos depois, quando as diretorias dos dois clubes se reconciliaram, inventaram uma solução criativa: O Homem da Meia-Noite, após o seu desfile, “entregaria as chaves da cidade” pro Cariri Olindense. É por isso que o símbolo desse bloco passou a ser uma chave. Podemos ver uma no alto do prédio de sua sede.

A Igreja com todas essas histórias, os movimentos culturais e o Carnaval, certamente fazem do bairro de Guadalupe um dos mais especiais do Sítio Histórico. Ele não está nos roteiros das companhias de viagem e das agências de turismo, mas vale a pena ir até esse local tão rico e conhecer um pouco mais da essência da cidade.

Participe, comente esse post: