Riacho Doce, na praia de Carne de Vaca, Goiana – PE

O ano de 2017 começa com uma nova visita à praia de Carne de Vaca, pertinho da divisa entre Pernambuco e Paraíba. Viemos conhecer, junto com a família do Seu João, morador antigo do lugar, locais onde foram gravadas algumas cenas de uma minissérie da Rede Globo de Televisão: Riacho Doce.

Naquele ano de 1990, um fenômeno televisivo estava acontecendo e não era nenhum programa da Globo, que muito raramente era ameaçada por alguma concorrente… até aquele momento.

Uma novela ameaça a hegemonia da Rede Globo

Estamos falando da novela Pantanal, exibida pela extinta TV Manchete.

Contando com uma mescla de atores conhecidos do público junto com revelações e uma trama escrita por Benedito Ruy Barbosa, (a novela havia sido recusada pela própria Globo e estava engavetada) a produção conseguiu bater a Rede Globo no chamado “horário nobre”.

Diante do sucesso da concorrente, os executivos da Globo se viram perplexos. Nunca tinham se deparado com tal situação, pois, assim como já dissemos, todas as novelas e programas desse canal eram sucesso de audiência e não tinha nem como alguma outra emissora ousar concorrer com ela.

Então a Rede Globo decidiu apostar em um enredo com mais ou menos as mesmas características de Pantanal: uma história passada no meio de cenários naturais belíssimos, personagens bastante identificados com o interior brasileiro, corpos de homens e mulheres à mostra e uma certa dose de misticismo.

Riacho Doce, o livro e as gravações pra TV

A produção não seria uma novela e sim uma minissérie, com nomes de peso do elenco da emissora, como Vera Fischer, Herson Capri e Fernanda Montenegro e  uma história adaptada a partir de um livro de José Lins do Rego, escrito em 1939.

O Riacho Doce do autor paraibano era nos arredores de Maceió, Alagoas, mas alguns funcionários da Globo conseguiram a informação de que a TV Manchete começaria a produzir em Fernando de Noronha uma outra novela pra tentar dar continuidade ao sucesso de Pantanal.

Com isso, a maioria das cenas da minissérie global foi levada pro arquipélago justamente pra atrapalhar os planos da concorrência.

Depois de passarem alguns dias nas ilhas gravando paisagens e cenas ao ar livre, os produtores da Rede Globo foram parar em Carne de Vaca, em Goiana – PE. Lá foram montadas umas estruturas provisórias pra representar uma vila de pescadores. Entre outras coisas.

Riacho Doce, em Carne de Vaca

Num grande coqueiral que fica a menos de 1 KM do povoado há realmente um riacho com pequenas lagoas. Um cenário muito bonito que foi mostrado na minissérie.

Por uma trilha de terra, dá até pra chegar caminhando ao local.

Quem quiser ir dirigindo deve ter cuidado, pois existem trechos com areia fofa, onde os veículos podem ficar atolados. Você pode usar palhas que caem dos coqueiros em certos trechos onde for passar, elas ajudam a prevenir esses desagradáveis atolamentos.

Hoje, quase trinta anos depois, o local, que anteriormente não tinha nome e depois das gravações passou a ser chamado de “Riacho Doce”, ainda conserva algumas de suas características originais.

Mesmo assim, o que vimos foi um contraste grande entre pequenos lagos. De um lado, a água é limpa, cristalina. Tanto é que vai um bom número de pessoas mergulhar por lá.

De outro, plantas, algumas delas juncos, já dentro das águas, todas queimadas. Parecia ser fogo muito recente, pelo aspecto visual e por que ainda dava pra sentir algum cheiro em determinados trechos.

Seria muito bom se esta situação pudesse ser resolvida. Não há como um ambiente como esse resistir durante muito tempo em condições de poder acolher visitantes em um quadro assim. Fica aqui o registro pra que quem de direito possa tomar as devidas providências.

Para os lados da praia, podemos ver a vastidão do coqueiral. Onde várias cenas da minissérie global foram gravadas.

O “Arrombado”

Depois de passar pela vegetação você vai conhecer um local que não está relacionado à produção, mas que é bastante popular entre os moradores de Carne de Vaca.

É um trecho de praia que tem o curioso nome de “Arrombado”.

Isso porque já houve um tempo, em épocas de chuvas, que os riachos e as pequenas lagoas ali pertinho transbordavam a ponto de causar transtornos para os pescadores que deixavam seus pequenos barcos amarrados aos coqueiros ou pra quem passava por ali.

Então foram feitas algumas barreiras com madeira e pedras pra tentar conter o volume da água. Só que elas sempre conseguiam romper “arrombar” essas barreiras, por isso o nome do lugar.

Já de uns bons anos pra cá o volume das águas diminuiu bastante e não há mais tantos riscos de transbordamentos que tragam problemas pros trabalhadores. Porém, ficaram alguns restos de troncos, pedras e outros materiais na areia e até dentro do mar.

Mas, voltando à produção da Rede Globo, algumas das cenas de Riacho Doce foram feitas no pátio da igreja de Santana e nos seus arredores.

Riacho Doce da TV: Sobrou alguma coisa?

Hoje o local fica apinhado de carros principalmente durante os domingos dos meses do verão e ainda mais no Carnaval, mas há 27 anos, havia bem menos circulação de turistas nessa vila. Existiam casas de tijolos apenas do lado esquerdo da igreja.

Do lado direito, onde hoje ficam bares, era só uma ou outra casa de madeira com cobertura de palha e umas árvores onde os pescadores penduravam suas redes.

Ainda há casas que foram as primeiras a serem construídas por ali até um bom tempo. Com o passar dos anos, a quantidade de habitações de alvenaria foi aumentando, a estrutura foi ficando mais diversificada.

Os habitantes começaram a abrir negócios locais justamente pra atender aos turistas que começavam a aparecer em maior quantidade e por mais tempo.

Em Carne de Vaca chegou a existir até um movimento pra que o nome do povoado fosse mudado pra Riacho Doce, em homenagem à minissérie. Mas uma boa parcela da população reagiu a essa possibilidade, afinal, o nome do lugar já vinha desde os tempos da ocupação, nos idos do século XVII.

Hoje em dia, a vila passa por seus dilemas. Uma beleza de tirar o fôlego, a praia, uma atmosfera tranquila, porém, algumas situações preocupantes.

Não são poucos os moradores, principalmente os que viram aquela movimentação toda de produção televisiva, que dizem que, mesmo com menos infraestrutura, há quase 30 anos poderia ter até mais habitantes no povoado.

Parece meio contraditório, né? Mais é assim mesmo.

Uma boa parte das pessoas, principalmente as mais jovens, tem ido embora para fazer faculdade, ver se consegue melhores colocações de trabalho e perspectivas de vida em capitais como Recife, João Pessoa ou até mesmo Rio de Janeiro e São Paulo.

De qualquer forma, vale muito a pena uma visita a Carne de Vaca. Os acessos são fáceis, pode-se chegar lá através da Rodovia BR – 101 e depois pegando a Estadual PE – 049.

Em Pontas de Pedra, a cerca de 10 KM de distância, há bons hotéis, que podem ser encontrados através de qualquer um desses grandes sites de reservas.

Se vier ao litoral norte de Pernambuco, não deixe de conhecer esse belo lugar, que serviu de cenário pra uma minissérie de sucesso e, ainda hoje, uma vez ou outra, ainda é lugar pra curtas-metragens e outras produções audiovisuais.

Um cenário cinematográfico, de rara beleza natural te espera em Carne de Vaca e região.

 

Este post é dedicado a Lucinha, que foi com a gente até o Riacho Doce, e Cilene, bem como toda a família de Seu João de Carne de Vaca, que nos contaram essas e muitas outras histórias, nos ajudando a construir nossos artigos.

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