Vassourinhas e Elefante de Olinda

Continuamos nas ladeiras do Sítio Histórico de Olinda. Hoje vamos conhecer duas agremiações do Carnaval que refletem muito bem o espírito dessa festa popular e democrática da “Marim dos Caetés”.

O Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas de Olinda tem sua sede no largo do Amparo, pertinho da velha igreja e no caminho pro bairro de Guadalupe.

Ele é um dos mais antigos clubes de Carnaval da cidade, começou em 1912, com dissidentes da troça “Papudinho”. É uma das mais antigas ainda em atividades, a desfilar durante os festejos de Momo.

Sim, e o Cariri, não é a mais antiga?

Ops! Mas pera lá, nós dissemos há um tempo que Cariri de Olinda era a mais antiga em atividade, que saía todo ano, abrindo a folia desde 1921, não foi?

Exatamente. Mas o que acontece é que Vassourinhas é um clube, diferentemente do Cariri. Na sua antiga sede, na rua do Bonfim, promovia bailes e outros eventos e as pessoas iam pra lá beber e se divertir. Só anos depois é que vieram os desfiles no Carnaval.

Outro detalhe é que esse clube Olindense não tem nada a ver com aquele famosíssimo frevo que é tocado por orquestras e até por bandas de gêneros musicais que nem tem nada a ver com o Carnaval.

Vassourinhas, o Frevo mais famoso do Brasil

O “Hino do Carnaval pernambucano”, que levanta o folião onde quer que seja tocado, foi composto em 1909 e vendido a um clube também chamado Vassourinhas, só que do bairro de Beberibe, no Recife. E esse clube foi fundado em 1889.

Conta-se que alguns membros da orquestra do Vassourinhas recifense fez uma pequena turnê em 1950, tocando em São Paulo e no Rio, e, de retorno a Pernambuco, fizeram uma escala em Salvador.

Aquele ritmo veloz e contagiante teria sido uma das inspirações pra que a dupla Dodô e Osmar inventassem o que seria mais tarde o Trio Elétrico.

O clube olindense nos carnavais de hoje em dia

Mas, voltando ao Vassourinhas de Olinda, já há muitos anos sua sede mudou-se da rua do Bonfim pro Largo do Vassourinhas e Elefante de OlindaAmparo.

Hoje o clube, apesar das limitações financeiras, promove várias atividades. De tempos em tempos, por exemplo, são abertas vagas pra quem quiser aprender a dançar Frevo.

Muitas vezes, a movimentação no Clube é alvo de reclamações e polêmicas entre os moradores dos arredores. Vassourinhas já teve até sua sede interditada por não cumprir com normas de isolamento acústico, pra que os ensaios das orquestras não provocasse tanto barulho na vizinhança.

Também, em alguns anos, teve que cancelar a sua saída por falta de recursos. Até os anos 1970, quando existiam concursos entre as troças e clubes no Carnaval de Olinda, Vassourinhas chegou a sair com centenas de foliões e pequenos carros alegóricos.

O desfile do Clube é quase sempre em dias de Terça-feira de Carnaval.

Descendo a rua do Amparo, passando pelos Quatro Cantos, chegamos a rua do Bonfim, pois lá existem histórias interessantíssimas sobre uma outra agremiação muito tradicional da folia da cidade. O “Elefante de Olinda”.

Havia algum elefante de verdade em Olinda?

Existia algum elefante em Olinda, talvez abandonado em algum terreno baldio por um circo? Esse elefante é alguma referência à Índia, ou mesmo à África, uma vez que o Carnaval de Pernambuco é bastante influenciado pelas culturas daquele continente?

Na verdade, nada disso.

O Elefante em questão, que originou a troça, nada mais era do que um biscuí de geladeira.

Conta-se que havia um senhor português que entre o final dos anos 1940 e começo dos 50 preparava bacalhoada e muita bebida em sua casa. E, em 1952, um grupo de jovens foi até o local e não só se empapuçou de carne como também tomou umas a mais.

O grupo desceu a ladeira da Sé, onde vivia o português e se dirigiu até a rua do Bonfim, até que um deles, (ou um grupo, não há registros exatos) entrou em uma casa e “pegou emprestado”, digamos assim, um enfeite. Esse era o tal elefante.

Todo mundo já animado, saiu com o elefante nas mãos pelas ladeiras olindenses. Foi assim que teve início a brincadeira.

A partir do ano seguinte, os integrantes de Elefante passaram a sair com camisas de um time de futebol amador que já nem existe mais e com um estandarte.

A agremiação só não tem uma sede fixa. Sabe-se que os seus criadores viviam perto da igreja do Bonfim, construída em 1758 mas que nos últimos anos, lamentavelmente, vem sofrendo com o descaso das entidades responsáveis, tendo sido interditada e com um futuro incerto até a presente data.

Vassourinhas e Elefante de Olinda

A rivalidade com Pitombeira dos Quatro Cantos

Um fato curioso é que o hino de Elefante, “Olinda Nº1”, que muita gente já deve ter ouvido em algum lugar, com um trechinho que diz “Olinda! Quero Cantar / A ti / Essa canção”, foi oferecida anos antes a outra agremiação: A Pitombeira, que já no começo dos anos 1950 havia se tornado “rival” do Elefante.

Essa rivalidade entre os dois grupos se acirrou bastante no tempo dos desfiles com notas e comissão julgadora, mas hoje já não anda tão intensa. Em alguns momentos, as duas agremiações chegam a se cruzar pelas ladeiras do Sítio Histórico, sem que isso ocasione brigas entre seus adeptos.

A melodia do hino foi composta por Clídio Nigro e a letra quem fez foi Clóvis Vieira, que na altura encontrava-se praticamente surdo, ou seja, nunca pôde ouvir o resultado dessa que é hoje uma das músicas mais tocadas, não só no Carnaval, como em outras festas populares em Pernambuco.

Como acontece com os maiores clubes e troças do Carnaval olindense, hoje em dia não há mais tanto improviso na organização dos desfiles, o que faltam são recursos, mas a maioria das agremiações já conta com diretoria, venda de “kits” com camisa, direito a uma certa quantidade de bebidas e outras ações.

Mas o que não muda é o espírito festivo, democrático. Qualquer pessoa pode seguir as troças e pular ao som das orquestras de frevo nas ruas.

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