A Noite dos Tambores Silenciosos no Carnaval de Pernambuco

Voltamos hoje ao bairro de São José, área central do Recife, pra mostrar um lugar histórico e que tem uma grande importância também dentro dos festejos do Carnaval de Pernambuco.

Não é muito comum (e na verdade nem muito recomendável) que alguém venha andar por esses lados num dia de domingo.

Mas acontece que nos dias de semana essas ruas ficam atopetadas de gente, pois é um local onde há comércio popular, então não seria possível captar imagens com tranquilidade pra o que nós estávamos querendo fazer, Mas, como já foi dito, o melhor é não se aventurar por essas ruas quando elas estão vazias.

Pois bem, de qualquer forma, lá fomos nós encontrar a igreja de Nossa Senhora do Terço, templo católico construído em 1726.

Mas antes, muito antes dessa época, o local já era um ponto onde havia culto à santa.

A “tolerância” dos holandeses e o começo do culto ao Terço

Acontece que, no século XVII, mais precisamente na época da dominação holandesa, havia aqui alguns canais e ruas estreitas que Maurício de Nassau tinha mandado construir. Essa era uma parte por onde passava muita gente que entrava e saía da cidade do Recife, com destino aos engenhos e a outras localidades mais pro interior do estado.

Muito se fala que a administração holandesa no Brasil praticava a tolerância religiosa… hum… mais ou menos.

O que acontecia era que os invasores faziam uma concessão ao povo, ou seja, pra não alimentar levantes populares liderados principalmente pelos padres e outros membros do clero que ainda atuava por aqui, eles não proibiram missas, fechavam igrejas e nem combatiam outras manifestações religiosas.

E esse lugar certamente por ser a entrada e saída da cidade, tinha um nicho onde pessoas se ajoelhavam e rezavam um terço pra Nossa Senhora.

Depois da expulsão dos invasores batavos, em 1654, o local passou por aterros pra contenção das marés e chuvas, mas muita gente preservava na memória afetiva a lembrança de seus pais e avós e a relação com o nicho que existia ali. Assim então foi construída a igreja.

Frei Caneca e seu (não) enforcamento na igreja

Perto de completar seus 100 anos, mais precisamente em 1825, a igreja seria o palco de um dos eventos maisA noite dos tambores silenciosos no carnaval de pernambuco dramáticos da história de Pernambuco.

É que no ano anterior houve uma grande revolta conhecida como “Confederação do Equador”. Esse movimento pretendia, entre outras coisas, separar uma boa parte da região Nordeste do resto do país e proclamar uma república.

O movimento foi dissolvido pelas tropas de D. Pedro I e muitos dos seus líderes foram condenados à forca.

O Frei Caneca era uma espécie de mentor intelectual da revolta em Recife. Era uma figura influente e muito carismática na cidade. Por isso mesmo, deveria ser condenado de maneira exemplar.

O seu enforcamento seria em janeiro de 1825, na frente da igreja de Nossa Senhora do Terço.

Seria. Mas acabou não acontecendo, pois, de acordo com os registros da época, ninguém queria ser o carrasco do frei.

A solução que encontraram foi destituí-lo da sua função de sacerdote e mandar executá-lo a tiros em frente ao Forte das Cinco Pontas, próximo dali.

A igreja tornou-se um lugar de referência pro Carnaval de Pernambuco a partir dos anos 1960. Com a criação da Noite dos Tambores Silenciosos.

A Noite dos Tambores Silenciosos e os Maracatus

Esse evento acontece sempre da segunda pra terça-feira de Carnaval e é composto pelos Maracatus do Recife e de muitos outros lugares do estado.

Em memória dos negros escravos mortos no Brasil e em honra dos seus orixás, as diversas “Nações”, como são chamados os grupos de Maracatus, desfilam pelas ruas do bairro e passam pela frente da igreja.

O Maracatu acabou se tornando um forte ícone da cultura pernambucana. Mas é bom a gente procurar separar um pouco as coisas:

De acordo com estudiosos e dos próprios líderes das religiões de matrizes africanas, nem todo grupo que sai por aí reunido tocando tambores é um Maracatu. Há muitos grupos, grande parte deles, formados por jovens que apenas executam a “parte musical”, com os tambores, conhecidos como alfaias.

O Maracatu, embora tenha sido incorporado à música popular brasileira, ou tenha sofrido com a apropriação cultural, segundo alguns autores, não é um ritmo musical apenas.

Maracatu mesmo é aquele nascido no terreiro e inspirado pelas divindades do Candomblé e todo um contexto das religiões e do “povo de terreiro”.

Pois bem, voltando ao Pátio do Terço, durante a noite da segunda-feira de Carnaval, os Maracatus passam. Até que na meia-noite, todas as luzes do bairro são desligadas, e os tambores param completamente.

Um silêncio completo toma conta do ambiente. Tudo em memória não só dos escravos africanos que morreram como também pra lembrar aqueles que não tinham direito a celebrar as suas raízes e por isso saíam em silêncio pelas ruas.

Uns minutos depois, volta a iluminação e os cortejos com os tambores a pleno.

A “Primeira-Dama do Pátio do Terço”

Uma figura teve muito destaque no que diz respeito ao Carnaval de Recife e morou quase sua vida inteira no Pátio da igreja do Terço.

Foi Maria de Lourdes Silva, conhecida como Badia.

Ela chegou a fazer de quase tudo um pouco. Só não tocava nas baterias das Escolas de Samba ou nas orquestras de Frevo, mas fora isso, exerceu papéis muito importantes pro Carnaval no bairro de São José.

Neta de africanos, muito cedo já começou a costurar fantasias e adereços pra as agremiações carnavalescas, fundando inclusive a sua, os “Coroas de São José”.

Para além disso, Badia era uma importante referência do candomblé. Era Zeladora de Santo, algo como uma conselheira espiritual junto à comunidade de terreiro.

Bastante influente também com a sociedade recifense de uma maneira geral, recebendo em sua casa artistas, políticos e jornalistas. É considerada a “Primeira-Dama do Pátio do Terço”. Sua casa ainda está lá no mesmo lugar de sempre.

A noite dos tambores silenciosos no carnaval de pernambuco

Há previsões de que ali seja construído um museu pra contar sua história. Ficamos aguardando…

O Pátio do Terço tem uma história secular. A Noite dos Tambores Silenciosos é um dos acontecimentos mais impressionantes do Carnaval de Pernambuco.

Ocorre sempre na noite da segunda-feira pra terça no mesmo local e as ruas, muitas delas estreitas, ficam amarrotadas de gente, tanto curiosos, quanto estudiosos de ciências sociais, história, etc. também de artistas e turistas de Pernambuco, de outros estados do Brasil e até estrangeiros.

2 comentários em “A Noite dos Tambores Silenciosos no Carnaval de Pernambuco

  • 15/02/2017 em 20:56
    Permalink

    Que post interessante! Adorei conhecer um pouco mais da história por trás do Patio do Terço e também das origens do Maracatu. Agora preciso conhecer o carnaval de Pernambuco!!!

    Resposta
    • 16/02/2017 em 01:45
      Permalink

      Oi Alessandra! Obrigado pro sua participação aqui no Reverso. A gente vai em muitos lugares e sempre tem algo que não conhecíamos, ou que só ouvíamos falar, por aqui mesmo, na nossa região Metropolitana de Recife/Olinda e adjacências. Não sou bairrista e muito menos xenófobo, (longe de mim esse tipo de coisa!) Mas há tanta história! As coisas foram se formando com vários elementos humanos e naturais pra chegar no que estamos hoje, e, com certeza, nossos descendentes ainda verão (pelo menos assim espero) muitas outras mudanças. E a gente aqui no Reverso procura garimpar as histórias que por ventura possam parecer interessantes.
      Mais uma vez agadeço seu comentário. Há possibilidades de ir a São Paulo, talvez em Setembro e já tenho em mente muitos lugares, que pra mim, “forasteriro” vão ser, certamente grandes descobertas.
      Abração!

      Resposta

Participe da conversa com seu comentário: