Uma viagem ao passado em Vila Velha, Itamaracá – PE

Um lugar que não sofreu tantas mudanças mesmo com o passar dos séculos. Um verdadeiro mergulho nos primórdios da história brasileira. Assim é Vila Velha, na Ilha de Itamaracá, litoral norte de Pernambuco.

Os livros ensinam que depois que aconteceram as primeiras viagens de europeus pro “Novo Mundo” houve a partilha da América entre portugueses e espanhóis, no que ficou conhecido como Tratado de Tordesilhas.

No ano de 1500, aconteceu aquela expedição do nosso célebre Pedro Álvares Cabral… não vamos contar essa história aqui, mas é bem discutível a conversa de ter se perdido do caminho da Índia, etc… O fato mesmo é que o português veio parar no litoral sul da Bahia.

Mesmo assim, entre 1500 e 1530, a terra que veio a ser o Brasil ficou em segundo plano, pois os europeus ainda andavam mais pelo Oriente, atrás de especiarias.

De qualquer forma, nesses anos houve algumas expedições até as terras de cá. Em 1501, Cristóvão Jacques esteve patrulhando o litoral brasileiro, passou por Pernambuco e deu nome a vários pontos pra servir de referência a quem viesse explorar as terras. Ponta de Pedras, praia da cidade de Goiana, foi um desses locais.

Franceses em Itamaracá

Acontece que outros povos da Europa não ficaram nem um pouco satisfeitos com o privilégio dado a espanhóis e portugueses, inclusive sob as bençãos do Papa da época. A França, por exemplo foi o primeiro país a contestar o Tratado.

Sem fazer cerimônias, os franceses simplesmente atravessaram o Atlântico e começaram a invadir a costa brasileira, vindo parar na Ilha de Itamaracá em 1516.

A empreitada francesa teve um certo sucesso, pois até mesmo com os índios eles mantinham uma boa relação. Tanto é que os potiguaras foram bastante solícitos em mostra – los onde é que ficavam os melhores terrenos onde poderiam extrair Pau-brasil.

Construíram uma fortaleza e começaram a habitar a parte do extremo sul da ilha, num ponto mais alto, de onde era possível avistar a entrada do Canal de Santa Cruz, que separa Itamaracá do município de Igarassu.

Os portugueses, sabendo dessas intromissões francesas por vários pontos do litoral brasileiro trataram de combater a ameaça às suas possessões.

Uma das igrejas mais antigas do Brasil

Por volta de 1525-26 os portugueses tomaram conta da Ilha de Itamaracá e construíram, exatamente sobre o antigo forte francês a primeira igreja católica do local, dedicada a Nossa Senhora da Conceição.

O templo não é tão grande e, se não está um primor de conservação, pelo menos está em condições bem razoáveis, em grande parte, graças à comunidade que mora na vila.

A igreja já não é mais como era no século XVI. Sucessivas reformas foram feitas até o começo dos anos 1880. Já no século XX, foram implantas as instalações elétricas e há algumas lâmpadas e até ventiladores nas paredes laterais, mas isso tudo é ligado só pela noite ou quando há missa. Durante o dia, temos uma impressão de quase penumbra, a luz solar entra pelas janelas e portas.

Nos aproximamos do altar central e o fato do chão ser de pedra aumenta a sensação de contemplação, pois não se ouvem passos, como nos pisos de madeira.

Lá no centro, uma imagem de Nsa. Senhora da Conceição, trazida de Portugal como um presente dado por Dona Maria I “A Louca”. É apenas nesse ponto em que a luz artificial fica constantemente acesa, no altar onde está a imagem barroca.

Mirantes de Vila Velha

Por trás da igreja há mirantes de onde se pode avistar a Coroa do Avião e o Canal de Santa Cruz.

A Coroa é um banco de areia onde, com o passar do tempo, foi se acumulando restos de plantas e matéria orgânica trazida principalmente pelas aves. Isso fez com que árvores crescessem na parte da formação de pouco mais de 2 hectares que não fica inundada mesmo nos tempos de maré alta.

O nome Coroa do Avião tem origens controversas. Há uma espécie de “lenda urbana” que é repetida por moradores de Itamaracá e Igarassu: um avião de pequeno porte da Força Aérea Brasileira teria feito um pouso forçado no lugar. Isso na década de 1950.

Seja lá como for, o lugar é bastante procurado por turistas. Existem alguns quiosques onde funcionam pequenos restaurantes que servem frutos do mar e há também um tráfego intenso de pequenas embarcações, quase todas motorizadas, que fazem a travessia de Itamaracá ou de Igarassu até a Coroa.

A Universidade Federal Rural de Pernambuco mantém lá um laboratório pra pesquisas sobre a fauna da região, incluindo aves migratórias.

Do mesmo mirante, se você olhar um pouco mais na direção sul, poderá ver a entrada do Canal de Santa Cruz, que separa o continente da Ilha de Itamaracá.

Do lado do continente está a praia de Mangue Seco, também conhecida como Praia do Capitão. Segundo historiadores, teria sido nessa área o desembarque de Duarte Coelho Pereira, o primeiro donatário da Capitania de Pernambuco e fundador de Olinda.

O Pelourinho

Quando você escuta essa palavra, talvez pense naquele famoso bairro de Salvador, Bahia.

Mas pelourinho, de uma forma genérica, é uma estrutura, geralmente um poste ou um tipo de coluna, que era usada na época colonial com algumas finalidades.

Um pelourinho era usado pra castigar criminosos e principalmente escravos. Mas também servia pra marcar o lugar como uma vila autônoma, algo como uma cidade hoje em dia.

No caso de Vila Velha, a coluna estava lá pra marcar a sede da Capitania de Itamaracá. Possuía Casa de Câmara e Cadeia (a sede do Poder Legislativo) e um bom número de construções, sejam prédios públicos ou religiosos e também muitas casas.

A importância de Vila Velha era tamanha entre os séculos XVI e XVII que até mesmo os holandeses, que invadiram as terras pernambucanas em 1630, consideraram a hipótese de fazer dela a capital de seu território.

As ruínas e a “Trilha dos Holandeses

Ainda podemos encontrar a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, ou melhor, as suas ruínas. O templo entrou em colapso, o teto e muitas das paredes desabaram há muito tempo.

Aqui, como em São Bento de Maragogi, em Alagoas, parece existir algum tipo de ligação afetiva entre o local e os moradores da vila, pois além do cemitério, bem ao lado das ruínas, também há imagens de santos católicos, várias Nossas Senhoras pelas paredes tombadas e já bastante corroídas pelo tempo.

Em frente a essas ruínas há um poste com várias indicações de locais, não só de Vila Velha, mas de toda a parte sul da ilha de Itamaracá.

Pertinho dali, existe a chamada “Trilha dos Holandeses”, que vai do povoado até a praia. As pessoas podem chegar até o Forte Orange por esse caminho. Mas ele é indicado pra quem tem experiência em caminhadas e está em grupos.

Nos tempos da invasão dos batavos em Pernambuco, havia vários caminhos como esse, a maioria se perdeu entre a mata, porém, essa trilha está praticamente no mesmo lugar onde sempre esteve. Os historiadores constataram isso através de mapas antigos, de diários de viajantes e demais documentos de 400 anos passados.

Os desafios da “modernidade

A Vila de Nossa Senhora da Conceição perdeu o posto de sede de Itamaracá no século XIX. A igreja matriz e todo o aparato administrativo foi levado pra a região do Pilar, a cerca de 13 KM ao norte.

Por isso mesmo é que o povoado tem esse nome, pois as pessoas começaram a se referir ao lugar como “A vila velha”.

O grande desafio aqui é encontrar um jeito de fazer com que a visita de turistas seja constante mas que não haja a depreciação do patrimônio e do ambiente. Há lojas de artesanato no lugar, há bares simples que servem um cardápio à base de frutos do mar e frequentemente aparecem ônibus de excursões e de alunos de ensino médio pra visitar Vila Velha.

Uma viagem ao passado em Vila Velha, Itamaracá - PE

Não dá pra paralisar as mudanças, elas sempre aconteceram. Mas deve se encontrar maneiras de capacitar as pessoas do próprio local e mostrar aos visitantes, principalmente aqueles interessados em História e cultura, a importância dessa que é uma das mais antigas vilas de Pernambuco e do país.

Como chegar / Dicas

  • Saindo de Recife, pegue a BR – 101. Vá até Igarassu, a 29 KM e pegue a PE – 035, passando a cidade de Itapissuma e entrando em Itamaracá, pela ponte Presidente Vargas. Em Itamaracá, permaneça no mesmo caminho até uma entrada pela esquerda, depois de placas indicativas da direção de Vila Velha. O percurso até o povoado é por uma estrada de paralelepípedos, são 7 KM até o destino.
  • Na vila não há lugares específicos pra estacionamento, mas há bastante espaço com boa localização e sombra no entorno da igreja. Não há flanelinhas ou pessoas que cuidam de vagas de carros. O mesmo vale tanto pra carros particulares como pra quem for em vans ou outros veículos de porte maior.
  • Os pontos de visitação são bastante próximos uns dos outros, portanto, desça do carro e percorra esses locais sem pressa. Porém, ao menos que tenha preparo e faça parte de um grupo, nunca se afaste da Vila, muito menos se aventure mata adentro.

Participe, comente esse post: