O mercado público e popular da Boa Vista

O lugar que nós vamos visitar é emblemático para a cultura do povo pernambucano. Faz parte da história de uma cidade há muitos séculos e atualmente é um mercado público. Mas do que isso, é um ponto de encontro de boêmios, artistas alternativos e da gente trabalhadora que circula pela cidade do Recife.

Vamos conhecer as histórias e personagens do Mercado da Boa Vista, no Recife

Antes de existir o Mercado

Por trás de uma igreja que acabava de ser concluída no século XVIII, havia um terreno que servia como cemitério pra os padres e pros membros mais destacados da paróquia.

Lembrando que estamos falando de uma época em que não existiam cemitérios públicos como os de hoje. Quem não fosse do clero nem de irmandade religiosa tinha seu corpo deixado em espaços às margens da cidade, enterrados em cova rasa.

Ali também funcionava uma estrebaria, local onde se guardavam cavalos e os utensílios relacionados a eles, como selas, arreios, etc. Esse lugar certamente era movimentado, pois era um tempo em que o cavalo era o principal meio de transporte terrestre da região.

Até que no ano de 1823 a Câmara Municipal do Recife solicita um empréstimo ao governo estadual pra que o terreno fosse comprado e que fosse construído ali um mercado público.

O trabalho de construção teria começado no início do ano de 1824, porém, certamente por esse ter sido um ano extremamente turbulento, pois foi quando eclodiu a Confederação do Equador, jamais foi encontrado nenhum documento com que se possa saber o dia da inauguração.

Comércio de alimentos e de gente

O fato é que o novo espaço ficou pronto e serviu mesmo como um mercado de alimentos principalmente, também de objetos de uso doméstico… e de escravos.

Os negros eram trazidos pro centro do pátio do mercado e ali ficavam o dia todo. Geralmente, algum capataz de senhor de engenho da região vinha e examinava a “peça”, como se costumava chamar na época, verificava a arcada dentária, aspectos físicos e demais características. Os que não fossem vendidos naquele dia, eram encerrados em cubículos na parte traseira da construção pra, no dia seguinte, serem novamente expostos e colocados à venda.

Hoje em dia

Hoje, a rua de Santa Cruz, onde se localiza o mercado, é bastante movimentada. É uma das transversais de uma das maiores avenidas do centro da cidade, a Conde da Boa Vista, e o entorno é passagem de veículos que vão e voltam do centro a várias outras partes da capital pernambucana.

O mercado mantém algumas das suas características originais, mesmo tendo passado por algumas reformas, a maior delas nos anos 1940. A fachada com arcos e a parte superior da entrada, onde há um letreiro com o seu nome são emblemáticos.

O mercado público e popular da Boa Vista

Pra quem quer visitar

Se você quiser ir ao local para ver sua arquitetura, as marcas do passado, visitar os boxes, etc, é aconselhável que faça isso durante um dia de semana, ou mesmo numa manhã de sábado até as 10 horas, no máximo.

Você poderá conhecer, com mais tranquilidade, alguns personagens bastante representativos do lugar.

Como o Sr. Edmílson, por exemplo. No seu espaço, ele vende de tudo. Desde bebida alcoólica, colher de pau, aqueles tubos que estouram lançando papel picado, que parece que virou moda de um tempo pra cá, até o bolo de rolo, guloseima tipicamente pernambucana, feita com massa enrolada em goiabada derretida.

Também a D. Sílvia, de um boxe com o nome de “O Petisqueiro”, que é justamente pra vender bebidas e petiscos, o popular “tira-gosto”: que pode ser um salgadinho, queijo assado, etc, com que as pessoas se distraem enquanto estão tomando suas cervejas.

Esse também é um lugar pra onde vão vários artistas populares, entre os quais poetas, chamados por alguns de “poetas marginais”, por estarem fora do circuito das bienais, das livrarias e das academias de letras.

Os escritores que se identificam com essas vertentes são muito vistos por lá. Vendem seus folhetos, muitas vezes com 8 ou 10 páginas, com algumas amostras do seu trabalho e, em algumas ocasiões organizam recitais de poesia, quando declamam seus versos pra os frequentadores do mercado.

Um deles foi imortalizado num canteiro do espaço: Erickson Luna, falecido há alguns anos.

Pra quem quer vivenciar

Se você for ao mercado da Boa Vista com amigos, já por volta de onze e meia, pegar alguma mesa em um dos bares, perceberá que ali é um ponto de encontro e confraternização popular.

Os espaços onde ficam distribuídas as mesas e tudo em volta, fica tomado. E não só dos fregueses dos bares.

Aos sábados, principalmente, do final da manhã pro começo da tarde, é comum ver bandas de forró, pagode ou brega, ou até algum cantor tipo voz e violão a se apresentar em determinados espaços no meio da verdadeira multidão que se forma no pátio central do mercado.

Existe um anfiteatro, ou mesmo um palquinho com sistema de som pra que esses artistas façam seus shows? Não. Há microfones, caixas de som, sim, mas tudo fica adaptado, em simbiose com o resto do ambiente.

O repertório das atrações musicais pode até seguir uma linha já ensaiada, mas é bem provável que os músicos comecem a ceder aos pedidos dos frequentadores dos bares. O “playlist” vai a gosto do freguês.

A bem da verdade, quase sempre o que acontece mesmo é a conversa se tornar tão ruidosa que as músicas acabam se tornando meros panos de fundo pro bate-papo.

É o tipo de programa pra quem topa qualquer parada. Pra quem quer entrar em contato com o recifense que quer apenas se divertir sem luxos, encontrar os amigos e tomar umas cervejas bem geladas.

 

  • Oficialmente, os horários de funcionamento do Mercado da Boa Vista são: de Segunda a Sábado, das 6 às 18 horas e nos Domingos, de 6 às 15 horas, mas de acordo com o movimento, esses prazos podem se esticar mais um bocadinho.

Nossos agradecimentos ao Sr. Edmílson e a D. Sílvia, comerciantes do local que não só nos receberam muito bem como nos chamaram pra que tirássemos fotos deles.

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