Largo de Santa Cruz e suas histórias de ontem e de hoje

Num tempo em que a capital pernambucana começava a se expandir pra outros lados depois da expulsão dos holandeses, foi construída num terreno espaçoso, no atual bairro da Boa Vista, uma igreja. E ela acabaria, com o passar do tempo, se tornando polo de atividades de vários tipos, não só religiosos, mas artísticos e culturais. Isso,  até os dias de hoje.

Histórias de ontem

A Igreja de Santa Cruz foi terminada entre os anos de 1725 e 1732, não se sabe ao certo. O que realmente se sabe, é que logo se formaram irmandades, como a mais antiga, a do Bom Jesus da Via Sacra.

Com o passar do tempo e a urbanização de bairros como esse, que ainda era meio periférico na capital, surgiram outras irmandades (ou confrarias). A cada domingo, antes da Páscoa, elas realizavam procissões, com a imagem da mãe de Cristo a se encontrar com o filho representado com a cruz nos ombros, em direção ao calvário.

Mesmo depois, em 1793, quando a igreja perdeu o status de “matriz” para um outro templo, o da Boa Vista, as comemorações da semana de páscoa e da Exaltação da Santa Cruz, em cada mês de agosto, continuaram a ser feitas no entorno do antigo tempo.

Isso tudo acabou tendo influência nessa parte do bairro, essencialmente residencial. Então ali acabou sendo criada uma dinâmica própria.

O bairro mantinha uma vizinhança bem ativa, que se juntava pra providenciar o que fosse necessário na parte “profana” das festas, como bandas de música e lazer de diversos tipos.

É claro que tudo era muito limitado se comparado às festas que são feitas hoje em dia. Estamos falando aqui em uma cidade que ainda começava a crescer, com bem menos de 100 mil habitantes.

A Rainha do Maracatu

Uma mulher, que nasceu e morou no largo de Santa Cruz, veio a ser rainha do Maracatu Nação Elefante, que começou no ano de 1800. Ela é uma das figuras mais importantes, não só desse local da cidade, como da cultura de raízes africanas no Brasil.

Dona Santa, como era conhecida, filha e neta de africanos, tinha como nome de batismo Maria Júlia do Nascimento. Tornou-se rainha do Maracatu e nas segundas-feiras de Carnaval, saía com a sua corte, vestida luxuosamente.

Essa dama da cultura pernambucana, mesmo tendo desfilado no Maracatu por apenas 17 anos, angariou um prestígio tão grande entre artistas e demais personalidades, que até hoje o seu nome é lembrado em músicas e no próprio meio dos Maracatus, tendo-se passado 55 anos de sua morte.

Aliás, por falar em Carnaval, esse é um dos pontos onde acontecem desfiles de blocos e manifestações como Caboclinhos (onde os participantes dançam como os índios, ao som de flautas e percussão) de Maracatus e demais atrações.

Histórias de hoje

Nesse local há uma movimentação bastante grande.  Bares, restaurantes e espaços culturais, apresentações de música pra um público majoritariamente “alternativo” mantém as atividades do largo a mil por hora.

A Cachaçaria do Largo é um desses prédios. Ele se destaca por ter um enorme mural cobrindo quase toda a sua parte externa.

Largo de Santa Cruz e suas histórias de ontem e de hoje

Bem ao lado, contrastando pela sua coloração vermelha, porém sem adornos ou pinturas, está um bar com o nome de “Cabaret Comedoria”. Esses espaços começam a funcionar pra valer mesmo depois que anoitece. Os funcionários colocam as mesas e cadeiras na calçada, e, quando não cabe mais, elas ocupam a rua mesmo.

Hoje em dia, só a igreja está muito bem conservada. O  mesmo não se pode dizer da maioria das edificações do largo de Santa Cruz. É bem visível a degradação dos imóveis do entorno.

De qualquer forma, os prédios vão sendo adaptados e ocupados por bares e espaços de arte e cultura. Num outro lado, em frente a igreja, está o bar “Lisbela e os Prisioneiros”, esse nome realmente faz referência ao filme (cujo título na verdade é Lisbela e o Prisioneiro, no singular), pois nesse local foram filmadas algumas cenas da produção que repercutiu pelo país afora.

Também no “Lisbela” uma vez e outra, acontecem eventos especiais, como a “Terça do Vinil”, quando, assim como sugere o nome, algum discotecário vai lá e bota o som na base dos antigos “bolachões” noite adentro.

Nos andares superiores está o “Edifício Texas”, que é um espaço cultural pra eventos como mostras competitivas de cinema “underground”, entre várias outras iniciativas.

Portanto, esse é um lugar histórico da cidade. Um grande ponto de encontro de gente de várias procedências. Não há luxo, culinária especializada nessa ou naquela cozinha estrangeira, mas é muito animado, recomendado pra quem tem boa disposição e está a fim de se enturmar e vivenciar a cultura do povo da cidade do Recife.

Saiba +

Página do Lisbela e os Prisioneiros Bar
Cachaçaria do Largo
Edifício Texas

Obs: O Reverso do Mundo não se responsabiliza por quaisquer mudanças de dias e horários de funcionamento dos bares e centros culturais citados, nem  pelos conteúdos de suas páginas. 

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