Histórias e personagens do bairro de Apipucos

Vamos conhecer hoje, no Reverso, o bairro de Apipucos. Visitaremos lugares históricos e emblemáticos, que ainda hoje conservam-se em pontos extremos da área mais densamente urbanizada da cidade do Recife.

A Igreja que já foi capela de engenho

Nossa primeira parada é na Igreja de Nossa Sra. das Dores. Ela fica numa elevação bem às margens da via principal, a Av. de Apipucos, que mesmo num dia de domingo já pelas 15 horas é bastante movimentada.

O acesso se dá por uma rua onde encontramos umas fileiras de casas que são bastante tradicionais em todo esse setor do bairro.

Não se sabe a data de construção do templo, mas ele está construído sobre outro mais antigo, que teria sido a capela do Engenho Apipucos, fundado em 1577. Não há vestígios da Casa Grande desse engenho, mas acredita-se que ela poderia estar do lado esquerdo da igreja.

O templo primitivo foi praticamente destruído pelos holandeses em 1645. É curioso, pois eles também saquearam e destruíram várias igrejas em Olinda.

Só que diferente do que aconteceu em Olinda, em 1631, quando as igrejas e muitos outros prédios foram destruídos pra que não servissem de pontos de retomada das terras pelos portugueses e também porque sairia muito caro mantê-los, aqui a destruição aconteceu num outro contexto.

Era 1645, um tempo em que os holandeses estavam perdendo muito rapidamente suas possessões, então destruíam igrejas e prédios maiores dos engenhos, à medida que sofriam derrotas e se retiravam pra região do Porto do Recife até a rendição, em 1654.

A praça de Apipucos

Voltando pra a avenida, seguindo a direção oeste (cidade – subúrbio) poderemos ver, logo à esquerda, uma praça.

Ela é rodeada por uma pequena vila de “casas térreas”, nome dado pra diferenciar essas construções dos sobrados. Essas casas já sofreram muitas modificações, mas preservam várias características de quando foram construídas, no século XIX.

Do outro lado da praça, uma estátua em tamanho natural de Gilberto Freyre, feita pelo artista Jobson Figueiredo e inaugurada em 2000, na data de centenário do intelectual.

Faculdade Marista e a vegetação ao redor

Voltando à avenida e subindo uma ladeira até a parte mais alta do bairro, você chega até a Faculdade Marista do Recife.

Ele é, na verdade, um complexo onde antes funcionava o Convento dos Irmãos Maristas em Recife, desde 2002 abriga a instituição de ensino. Porém, a capela, dentro do conjunto, ainda funciona e é alugada principalmente pra casamentos de pessoas das famílias um pouco mais abastadas da Região Metropolitana do Recife.

Os blocos estão em uma localidade bastante aprazível, na parte dos fundos é possível andar por trechos bastante arborizados, um pequeno fragmento de Mata Atlântica de onde se pode apenas escutar, bem distante, os sons dos veículos das rodovias próximas.

O prédio e o seu entorno não são pontos de visitação turística, a faculdade é uma instituição privada e não há companhias que fazem passeios por lá, mas nos dias e horários em que a faculdade está em funcionamento, de segunda a sábado, preferencialmente durante os turnos da manhã e tarde, é possível andar um pouco pelos seus arredores e curtir a natureza.

Fundação Gilberto Freyre

Descendo o alto onde fica a Marista por uma via que começa em frente ao seu prédio, chegamos bem na entrada da Fundação Gilberto Freyre.

Gilberto de Mello Freyre é chamado por alguns autores de “Polímata”, ou seja, um intelectual que estudou e publicou trabalhos acadêmicos em várias ciências. Sociologia, Antropologia, História talvez sejam as áreas às quais ele mais se dedicou.

Também escreveu romances, poemas e publicou artigos em jornais. Sua obra, principalmente seu livro mais conhecido “Casa Grande e Senzala”, de 1933, já foi traduzido pra diversos idiomas e permanece sendo editado mundo afora.

A obra “freyreana” é bastante controversa. Foi ele quem lançou a ideia de que o Brasil seria uma “democracia racial”, entre outros conceitos bastante discutidos e mesmo polêmicos.

Bom, no Reverso, ficamos por aqui no que diz respeito às ideias de Freyre, vamos continuar o nosso passeio.

No final da descida da rua Jorge Tasso Neto está a entrada da casa onde o intelectual e sua esposa, D. Magdalena, viveram e onde hoje funciona a Fundação Gilberto Freyre.

Podemos ver alguns pontos interessantes, mesmo sem ter acesso à casa. Como por exemplo, o painel, confeccionado pelo artista Francisco Brennand com o nome do lugar em baixo-relevo. E, do outro lado do portão, a placa com os dizeres “Vivenda Santo Antônio de Apipucos”.

Outro detalhe que chama a atenção são as escadas que ligam a entrada até a calçada da avenida. Ela não é muito grande e é composta por degraus que ficam como se tivessem sido sobrepostos em um barranco, com muita vegetação entre o piso.

Fincadas no meio da escada, palmeiras imperiais. Elas estariam ali pra dar um ar de nobreza ao espaço e, de fato, são bem altas, com seus troncos grossos.

A mansão de Delmiro Gouveia

Voltando pra a avenida na direção por onde viemos, podemos observar um casarão. Ele hoje pertence a Fundação Joaquim Nabuco, é o chamado Campus de Apipucos. Um habitante ilustre desse lugar foi Delmiro Gouveia.

Nascido no interior do Ceará, ele se envolveu e fez dinheiro com o comércio de peles de cabras e ovelhas, fundando sua própria empresa. Chegou ao Recife em 1872.

Delmiro, que não teve educação formal durante sua infância e juventude foi responsável, entre muitas outras coisas, por um empreendimento inspirado na Feira Mundial de Chicago, EUA, de 1893.

Este empreendimento foi posto em prática entre 1898/99 numa área bem próxima ao centro do Recife, que na época ainda não era tão central assim. Ele consistia, basicamente, em um espaço para lazer e bem-estar, conceitos bastante inovadores no Brasil da época.

O derby, que depois virou o nome do próprio bairro, contava com mercado, parque de diversões e casino. O Mercado, por exemplo, seguia uma lógica aplicada aos Shoppings já no séc. XX. A de proporcionar um ambiente com uma dinâmica própria, isolada do resto da cidade.

No casino e no parque de diversões, a eletricidade, algo então novo no país, era usada para realçar as instalações. Havia também um hotel, onde se hospedavam empresários, muitos deles estrangeiros que chegavam pelo porto do Recife.

Não durou muito até que o local fosse destruído por um incêndio criminoso por ordem do então governador do estado, de quem Gouveia era ferrenho inimigo. No local, hoje em dia, está a Praça do Derby e a sede da Polícia Militar de Pernambuco.

Açude de Apipucos

Por último, mas não menos importante, você conhece o açude de Apipucos. Ele é um lago bem grande, com 4 metros de profundidade máxima.

Era bastante comum, no séc. XIX as famílias mais poderosas do Recife mandarem construir mansões pra vir passar os verões nesse local que era uma estância balneária, ou seja, um local onde se vinha tomar banhos nas águas, que na época achava-se que tinham propriedades medicinais.

Muitas famílias tinham suas casas nas proximidades do açude e isso foi um dos fatores responsáveis pela povoação do bairro, com a construção das “vilas” de casas térreas que visitamos. Hoje em dia, não há banhos por lá, o que podemos ver são alguns pescadores tentando a sorte.

Observamos alguns locais específicos, como um trecho que lembra uma ilha, por trás de residências grandes e luxuosas, uma delas que é da família do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e outro trecho, onde vemos muitas casas da comunidade do Alto do Mandu.

Dicas
  • Todos esses pontos estão bem próximos um do outro. Não há uma agência ou algo do tipo que faça esse roteiro. Ele seria mais indicado pra mochileiros ou pra quem está em casa de parentes ou amigos na cidade.
  • Esse é um dos lugares mais significativos e históricos na cidade do Recife. É tranquilo e tem trechos bastante arborizados, isso faz com que a sensação de calor seja bem menor, porém, é preciso ficar mais ligado ao caminhar, por causa da quantidade razoável de folhas e o musgo que se forma em determinadas áreas.
  • Há uma unidade de Segurança Integrada, com viaturas e delegacia bem ao lado da praça.

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