A história sueca em Paulista – PE

O centro da cidade do Paulista, pra quem vai curtir as praias de Pontas de Pedra ou Carne de Vaca, em Goiana, ou pra a região do litoral sul da Paraíba pela BR – 101 pode passar desapercebido, ser até mesmo irrelevante. Mas esse é um lugar com uma história muito rica, interessantíssima. Acompanha até o final do post que a gente vai te contar um pouco do que se passou nessa cidade.

Quem é o paulista?

Não, você não leu errado, é cidade “do Paulista” mesmo. E realmente existiu um homem, nascido em São Paulo, cuja presença fez com que a cidade acabasse tendo esse nome.

Manuel Alves de Moraes Navarro, que tinha feito parte de algumas expedições que o governo de Pernambuco havia contratado pra combater os quilombos, comprou terras de um engenho e se instalou definitivamente no local por volta de 1689.

Isso chamou a atenção das pessoas, que começaram a chamar não só as propriedades de Navarro, como toda a região como “as terras do paulista”.

O nome pegou. Todavia, diferente do que aconteceu em outras cidades, o engenho não deu origem ao município: Paulista fazia parte de Olinda, só tendo sua emancipação total em 1935.

O sueco

Duzentos e tantos anos depois, as “terras do paulista” passariam por outra grande transformação motivada por alguém vindo de fora de Pernambuco. Dessa vez, um imigrante sueco.

Herman Theodor Lundgren chegou ao Brasil na década de 50 do séc. XIX e desembarcou no Rio de Janeiro, então capital do país. Porém, não fixou residência na cidade. Decidiu ir a Pernambuco, onde achava que teria menos concorrência, entre outras razões.

Depois de alguns empreendimentos de sucesso, já em terras pernambucanas, ele voltou a sua atenção pra a indústria têxtil. Soube de umas fábricas no município de Olinda que estavam quase falidas, com as máquinas muito defasadas e insuficiência de trabalhadores.

Com a ajuda de seus filhos já adultos e que tinham acabado de voltar da Europa, onde completaram os estudos, Herman comprou essas fábricas e investiu na renovação tanto das instalações físicas quanto do maquinário. Estava iniciada a Companhia de Tecidos Paulista.

Depois da morte de Herman, em 1907, um de seus filhos, Frederico, foi quem tomou o controle das indústrias em Paulista. No auge do empreendimento, chegou a existir duas enormes fábricas, empregando milhares de pessoas.

Frederico mandava seus subordinados saírem por localidades principalmente da região da zona da mata norte de Pernambuco e do sul da Paraíba pra coletar pessoas. Vinham em caminhões e sempre apanhavam muita gente, desde homens e mulheres, mesmo deficientes físicos, até crianças e adolescentes.

Conta-se que os capatazes diziam pras pessoas que elas trabalhariam em uma grande fábrica em Olinda, que lá teriam melhores condições de vida… há quem diga também que alguns desses funcionários de Frederico inventaram uma história pra seduzir o povo: que nesse lugar havia montanhas de cuscuz e chafarizes com fontes de leite.

Um quebra-cabeças na cidade

Atualmente, as indústrias têxteis dos Lundgren não estão mais em funcionamento. As edificações das fábricas foram fechadas e sofreram com a degradação causada pelo abandono ao longo dos anos. Outros prédios adquiriram novas funções e passaram por muitas mudanças.

Mesmo assim, a história ainda está por lá, meio fragmentada, como peças de um quebra-cabeças.

A fábrica Arthur

Uma das fábricas, que levava o nome de Arthur Lundgren, era localizada na parte leste do centro da cidade. Após a sua desativação, o terreno ficou ocioso até que em outubro de 2015, um Shopping Center foi inaugurado no local.

Das estruturas da antiga empresa, foi preservada uma das chaminés. Com mais de 70 metros de altura, ela é mantida com ajuda de aparatos metálicos colocados na base e de um cinturão de aço pra sustentação que foi colocado a uma certa altura.

Outra peça da antiga fábrica ficou quase dentro do próprio Shopping. Ela é um dos escritórios da indústria.

O prédio foi preservado inteiro, com seus dois pavimentos, quatro janelões na parte térrea, decorados no piso superior com recortes de ferro, muito em moda na época. No primeiro piso, janelões decorados com vitrais.

Em imagens antigas, da época em que a fábrica estava funcionando, e fotos mais recentes, de antes da construção do Shopping, é possível ver que havia outros galpões que, por algum motivo, não foram preservados.

A fábrica Aurora

A 850 metros da fábrica Arthur, está um outro polo do antigo império dos Lundgren. A fábrica Aurora. Ou melhor, aquilo que sobrou dela.

Nessa área também há um empreendimento, só que diferente do Shopping Center, aqui as coisas ainda estão em andamento: Um condomínio residencial e comercial com um edifício-garagem, centro de compras entre outros equipamentos que estão sendo erguidos desde 2015.

Não há como entrar no terreno dos antigos galpões, porém, podemos ver três grandes chaminés e uma caixa d’água que serão preservados e incorporados ao ambiente. Há um trecho de muro da fábrica que foi adaptado e se tornou uma espécie de caramanchão. Numa pracinha, vemos uma estrutura cilíndrica já com um cinturão de sustentação.

No escritório da empresa imobiliária, um ambiente que conserva algumas características de antigos galpões. Isso nos anos do auge das indústrias têxteis era repleto de máquinas bem grandes e muita gente trabalhando.

Igreja Matriz da cidade

Esse templo também foi construído por ordem da família Lundgren e tem uma história curiosa:

A sua construção aconteceu entre 1946 e 1950. No final, os filhos de Herman queriam homenagear a mãe, Anna Elisabeth, colocando o nome de “Santa Elisabeth” na igreja, mas desconheciam alguma santa que tivesse esse nome e então resolveram batizar o templo de Igreja de Santa Isabel.

Na verdade, existe uma Santa Elisabeth, que viveu na atual Eslováquia, no século III.

A igreja é de estilo eclético. Tem muitos componentes do gótico, como a torre principal de 60 metros de altura. E é toda de tijolos aparentes.

Em 2008, ela foi escolhida como o mais importante cartão-postal da cidade. Porém, pra que continue a ser esse importante símbolo do Paulista, é preciso reforçar os cuidados com sua estrutura. Principalmente nas épocas de chuva, forma-se muito limo nas suas paredes e isso, entre outras coisas, pode contribuir pro desgaste cada vez maior do prédio.

As Casas Pernambucanas

A partir de uma certa época, os Lundgren resolveram fazer a sua própria marca de tecidos e vender diretamente ao consumidor, isso é mais ou menos o que se chama de “varejo”.

Essa nova empreitada começou pouco mais de um ano após a morte de Herman Lundgren. Em 1908, a família abriu a sua primeira loja, num casarão que ainda hoje existe entre a igreja e o terreno da fábrica Aurora.

Daí é que se originou a cadeia de lojas Casas Pernambucanas, hoje presente em 7 estados, sendo a empresa do ramo de vestuário que mais fatura no país.

A rede, além de roupas, trabalha também com eletrônicos e até com serviços financeiros (seguros, empréstimos, etc.)

A propriedade dos Lundgren

No meio de todas as peças do “quebra-cabeças” está a casa onde morava a família Lundgren.

A propriedade foi feita em duas fases. A primeira foi a parte térrea, construída no comecinho do século XX, depois de Herman ter comprado as primeiras fábricas. Conta-se que esse espaço está assentado sobre as antigas fundações da casa-grande do engenho de Manuel Navarro, o tal “paulista” lá do século XVII.

A segunda fase foi construída nos anos 1930. Um prédio de 4 pisos com uma torre onde teria funcionado um elevador, equipamento completamente inusitado pra a época e o local.

Os projetos do complexo foram concebidos e executados por profissionais ingleses e alemães. Aliás, essa era uma das principais características dos empreendimentos em Paulista.

Nada, ou muito pouco, era feito na base do empirismo. Inicialmente Herman e depois os seus filhos sempre recorriam a técnicos, a maioria ingleses, pra dar instruções, algo que hoje chamaríamos de “consultorias” sobre os assuntos com os quais estavam lidando.

A área da casa-grande é muito arborizada com oitizeiros, mangueiras e outras árvores frutíferas. Também existiu aí entre os anos 1940 e 50, um pequeno zoológico, com aves como pavões, papagaios, etc. mamíferos e répteis de pequeno e médio porte, como jabutis, micos, preás entre outros.

Ainda se pode ver o coreto onde, nas festas de Carnaval, São João e no período natalino havia apresentações de bandas e orquestras.

Havia, além dessas instalações na propriedade, vilas operárias, um pequeno comércio e até clubes com salões de baile e pequenos cinemas nas imediações das fábricas.

Esses espaços existiam pra fazer cumprir uma das grandes diretrizes da administração de Frederico Lundgren à frente da indústria: proporcionava um controle muito firme, no que se refere à produção industrial e também no comportamento dos empregados.

O encerramento das fábricas do Paulista

As fábricas acabaram encerrando as suas atividades definitivamente após sofrerem com as diversas mudanças econômicas, sociais e políticas principalmente dos anos 1930 a 60. Ainda resistiram um bocado, mas sucumbiram ao avanço tecnológico que fez com que aquele tipo de produção ficasse defasada.

As Casas Pernambucanas, que no começo serviram pra facilitar a venda da produção das indústrias, ironicamente, também contribuíram pra que elas chegassem ao esgotamento ao dar melhores resultados do que as fábricas.

Nos dias de hoje

Hoje, o terreno da fábrica Arthur foi incorporado a um empreendimento, o da fábrica Aurora já está sendo. O prédio da loja que originou as Casas Pernambucanas é uma Agência do Trabalho do município e a igreja matriz é controlada pela Arquidiocese de Olinda e Recife.

A casa-grande da família Lundgren é tombada pelo Patrimônio Estadual de Pernambuco e está fechada pra visitação pública há 50 anos. Existem projetos de se reabrir o imóvel e transformá-lo num memorial da indústria em Pernambuco, mas ainda não existe uma previsão de quando isso vai acontecer.

Paulista é hoje a cidade com uma das maiores populações de Pernambuco e o turismo lá, assim como na maioria do estado, se concentra nas praias. Mas o centro é cheio de histórias interessantes e deve ser mais valorizado por isso.

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