Goiana – PE: A arte barroca, a música e o cinema

Vamos conhecer um pouco da arte barroca, música e cinema em Goiana. Ela fica no meio do caminho entre Recife e João Pessoa. A 62 km da capital paraibana e quase a mesma distância da capital do estado de Pernambuco.

Originalmente habitada por índios Caetés e Potiguaras, o lugar contava com um certo número de colonos brancos e engenhos já no século XVI.

Mais precisamente no ano de 1568, apenas 43 anos depois da fundação de Olinda, Goiana já era elevada à categoria de “freguesia” (algo como um distrito de hoje em dia que estavam nas Vilas, que eram como os municípios atuais) na Capitania Hereditária de Itamaracá, sendo sede dessa unidade administrativa, como também foi Vila Velha, hoje no município de Ilha de Itamaracá.

O templo carmelita, o cruzeiro e as lendas urbanas

Essa cidade possui uma grande concentração de igrejas bem antigas. Algumas delas são belos exemplos da arte barroca no Nordeste.

A Igreja de Nsa. Senhora do Carmo e o Convento de Sto. Alberto dos Carmelitas fazem parte de um complexo que teve início em 1666, com a construção de uma pequena capela de taipa.

goiana barroco e musica

A construção foi um pedido que um frei chamado Alberto do Espírito Santo fez pra instalar os carmelitas em Goiana, uma vez que até então apenas Olinda contava com um convento pra essa ordem religiosa.

A capela de taipa deu lugar a uma estrutura maior, de pedra e cal, em 1672. Já em 1679, o convento foi totalmente reformado sob as ordens de André Vidal de Negreiros, como pagamento de uma promessa que tinha feito, caso vencesse os holandeses.

No pátio interno, a gente pode ter uma visão dos corredores com as celas e demais cômodos. No centro, um jardim com palmeiras imperiais.

Dentro da igreja do Carmo, o altar central ricamente decorado, com vários altares pequenos de madeira de lei dos séculos XVI e XVII, imagens de santos nas partes laterais e, no ponto principal, a imagem de N. Sra. do Carmo tipicamente barroca, adornada com tecidos e tendo em volta de sua coroa um conjunto de pequenas lâmpadas amareladas.

Uma das obras mais esplêndidas do barroco em Pernambuco está na praça, em frente ao convento.

Trata-se do cruzeiro. Ele foi construído bem no comecinho do século XVIII e sua base, de calcário, foi esculpida numa rocha só.

A grande base classificada como de influência oriental em suas linhas é extremamente bem-acabada. Logo acima dela, nos quatro lados de onde está colocada a cruz, ornamentos que lembram coroas de flores com formas ovais no centro. Em cada uma dessas formas, símbolos diferentes, e numa delas, dizeres gravados com aquela grafia e modo de escrita do português da época.

Conta-se que o imperador D. Pedro II, em visita a Goiana, no ano de 1859, teria ficado impressionado com a grandiosidade do cruzeiro.

Há uma lenda urbana difundida na cidade: o cruzeiro seria o ponto onde termina um túnel com tesouros.

Dizem que o próprio Vidal de Negreiros teria mandado escavar túneis por baixo da igreja do Carmo e teria escondido nesses túneis mantimentos, armas e valores em ouro.

Na verdade, por mais que não haja confirmações ou vestígios materiais dessas passagens secretas, essa ideia se cristalizou com tanta força que, até hoje, é muito comum as pessoas que vivem ou trabalham perto de monumentos históricos por esse país afora, afirmarem que por debaixo de tal lugar há ouro, pedras preciosas e demais tesouros.

Existe uma grade em torno do monumento e, geralmente durante o dia um portãozinho permanece aberto, de modo que quem queira se aproximar um pouco mais pra apreciar toda essa beleza e tirar fotografias, pode fazer isso sem problemas.

Porém recomenda-se jamais colocar as mãos no cruzeiro.

A banda liberal e a conservadora de Goiana

A tradição de bandas instrumentais também é bastante forte em Goiana, tanto é que lá existem duas das mais antigas de Pernambuco.

A Saboeira fica perto da praça do Carmo, foi fundada em 1849 e era ligada ao Partido Liberal. Ela foi batizada com esse nome porque em sua sede original havia um saboeiro, árvore cujos frutos produzem uma espuma.

Em outubro de 1908, um dos principais membros da Saboeira resolveu criar uma sociedade com que as pessoas contribuíam mensalmente com uma determinada quantia pra manter as atividades da banda.

Na atual sede da Sociedade 12 de Outubro – Saboeira, além das ensaios e apresentações da banda em eventos e datas especiais, também acontecem shows de cantores e bandas populares, formaturas e outros eventos sociais.

Não muito distante dali, na rua 5 de maio, que aliás é o dia da emancipação política da cidade, encontramos a sede da Banda Curica. Fundada em 1848, ela era ligada ao Partido Conservador.

Nos primeiros anos, a banda não tinha nome. Até que uma senhora que morava perto da sede, teria comparado o som de alguns instrumentos ao da Curica, (uma ave semelhante ao papagaio). O apelido pegou e acabou ficando como o nome oficial da banda.

Arte barroca, música e cinema

Mesmo com as divergências políticas, tanto a Saboeira quanto a Curica tocaram durante a visita de D. Pedro II à cidade de Goiana, em 1859.

O cineteatro e uma produção cinematográfica na cidade

Na avenida Marechal Deodoro da Fonseca, uma das principais da cidade, a meio caminho entre a praça do Carmo e a sede da Banda Curica, encontramos um dos pontos culturais mais importantes da região da mata norte de Pernambuco: o cineteatro Polytheama.

O espaço foi construído em 1914 e logo foi palco de uma novidade que certamente deve ter proporcionado fortes emoções a toda a população local: a primeira exibição de cinema em Goiana.

Na década seguinte, no ano de 1922, começou uma movimentação cultural em Pernambuco que entrou pra história como “O Ciclo do Recife”.

Algumas pessoas que até já trabalhavam com fotografia, outras que nunca tinham operado uma câmera na vida, juntaram-se com gente que se oferecia pra colaborar, dividindo o tempo entre as suas atividades profissionais e o ideal de fazer cinema.

Foram fundadas várias companhias em Recife. A primeira que se tem registro foi a “Aurora Filmes”. Outras tantas vieram depois.

Leonel Correia Filho, dono do Polytheama, foi atrás de Jota Soares, que já era conhecido por ter feito alguns trabalhos com a Aurora Filmes e fundou, em 1926, a única empresa cinematográfica fora do Recife: a “Goiana Filmes”.

Junto com outros sonhadores, Leonel e Jota conseguem realizar uma proeza: produzem “Sangue de Irmão”.

Todo rodado em Goiana, o filme conta a história de um proprietário de terras que comete atrocidades contra roceiros e acaba sendo capturado e morto por eles.

Nada sobrou desse filme, ele foi destruído num incêndio. A produtora de Goiana e todas as outras do Ciclo do Recife tiveram vida curta: muito frágeis economicamente, não resistiram à concorrência das grandes produções americanas e à chegada do cinema falado, nos anos 1930.

O cineteatro foi fechado em 1980, por falta de uma programação regular, ficando assim até o ano de 2010, quando foi reaberto pela Fundação do Patrimônio Artístico e Histórico de Pernambuco (Fundarpe). Se bem que já existem queixas sobre a efetividade das obras.

E esse foi o nosso primeiro passeio em Goiana, cidade histórica, bem na divisa entre Pernambuco e Paraíba. Em breve conheceremos mais um pouco de suas praças, ruas e outras igrejas com muito pra contar. Continua com a gente!

 

Post em parceria com Rafael Gustavo

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