Paixão de Cristo de Nova Jerusalém – 50 anos (e antes)

Num distrito da cidade de Brejo da Madre de Deus está construído aquele que é considerado o “maior teatro ao ar livre do mundo” onde é encenada Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Fazenda Nova e a grande cidade-teatro, é o que vamos conhecer hoje no Reverso do Mundo.

A encenação já existia antes de começar a existir

Achou confuso isso que você acabou de ler? A gente explica:

A dramatização da Paixão de Cristo em Fazenda Nova foi iniciativa do comerciante e líder político do lugar, Epaminondas Mendonça. Conta-se que ele lia a Revista Fon-Fon, que era bastante conceituada até os anos 1950, quando deixou de circular.

Uma das edições da revista trazia uma matéria falando sobre a encenação do drama de Cristo numa cidade da Alemanha. Isso despertou em Epaminondas o desejo de produzir um espetáculo como esse na sua região.

E em 1951 foi feita a primeira Paixão de Cristo em Fazenda Nova.

Não havia estrutura nenhuma, tudo era feito pela família de Epaminondas e alguns empregados dele. As roupas eram confeccionadas com lençóis e não existiam cenários, sistema de iluminação e de som, muito menos atores profissionais.

A bem da verdade, a empreitada teve o objetivo de movimentar o comércio de Epaminondas. Ninguém falava em construir cidades cenográficas, usar aparelhagens elétricas. Nada.

As apresentações eram feitas no Domingo de Ramos, na quinta e sexta-feira da Semana Santa e eram acompanhadas pelos moradores do distrito, de gente de sítios próximos e de estradeiros que paravam por lá.

Hoje, o centro de Fazenda Nova já mudou bastante. As ruas asfaltadas com carros passando de um lado pro outro, casas de alvenaria com luz elétrica e uma certa infraestrutura  já formam uma paisagem bem diferente dos tempos dessas primeiras apresentações.

Os primórdios da profissionalização

Acontece que ainda no decorrer dos anos 1950 a peça de Fazenda Nova começou a ganhar fama e atrair gente da sede do município de Brejo da Madre de Deus. Em cidades maiores, como Caruaru, que fica a cerca de 50 KM dali, já eram organizadas caravanas com pessoas interessadas em asistir a Paixão de Cristo.

Chegou um ponto em que a encenação passou a atrair também atores e demais pessoas ligadas à produção teatral, que enxergavam ali uma nova oportunidade de trabalho longe do Recife.

Isso foi bom, pois diminuiu bastante o nível de amadorismo, atores substituíram pessoas sem nenhuma experiência de teatro. Também cenógrafos e figurinistas conseguiram fazer com que a parte visual das cenas ficasse bem mais interessante.

Porém, não havia patrocinadores e, mesmo pra um homem de posses, a produção do espetáculo estava ficando inviável.

Uma proposta então foi apresentada em 1962 por Plínio Pacheco, gaúcho, com formação em comunicação na Força Aérea, que era casado com a filha mais nova do Sr. Epaminondas, Diva.

A ideia era construir uma estrutura num grande terreno em Fazenda Nova e cobrar entradas do público, fazendo assim com que existisse dinheiro pra pagar os profissionais e investir em melhorias técnicas pra as apresentações.

A partir daí, Plínio assumiu a direção do projeto. Uma de suas primeiras medidas foi suspender temporariamente a encenação até que fosse terminado esse novo lugar.

O genro do Sr. Epaminondas começou a trabalhar incansavelmente não só pra garantir o financiamento que pudesse tornar o projeto possível, como também no canteiro de obras, agindo em praticamente todas as fases da construção.

Plínio Pacheco via ilustrações e pinturas em livros de arte e, a partir disso, orientava os projetos pra que pudessem se parecer o máximo possível, dentro das limitações, obviamente, com as imagens que lhe serviam de inspiração.

Em 1967 foi retomada a encenação da Paixão de Cristo.

Paixão de Cristo de Nova Jerusalém

A réplica dos locais onde, segundo os textos bíblicos, aconteceram os últimos atos de Cristo é uma cidadela cercada por uma muralha de 3.500 metros de extensão e 70 torres com 7 metros de altura, dentro dela há 9 palcos com formato de anfiteatros. Conta-se que essa área tem cerca de um terço da que tinha a Jerusalém do século I.

O espetáculo já deixou de ser encenado nos dias da Semana Santa há algum tempo. As apresentações passaram a acontecer sempre uma semana antes, terminando no domingo anterior ao de Páscoa.

Durante o resto do ano é possível fazer visitas à parte interna da cidade cenário, pagando-se uma taxa. Inclusive é até bastante comum ver ônibus de estudantes ou de grupos diversos que aproveitam as temporadas mais tranquilas pra apreciar com mais calma todo esse mundo de pedra.

As novidades pra esse ano já começam no pátio externo. Foram colocados além de letreiros, no estilo daqueles que existem em vários pontos em cidades mundo afora, um marco de 50 anos do evento.

Recentemente também Plínio Pacheco e uma Pietà com o rosto de Diva Pacheco e de Luiz Mendonça, que foi o primeiro a fazer o papel de Jesus, ainda quando a Paixão era encenada só nas ruas de Fazenda Nova foram imortalizados em esculturas feitas pelo artista plástico Caxiado.

Ao redor do monumento a Plínio, onde ele aparece junto de um Jeep, com um de seus ajudantes mais próximos, o Casé, há uma passarela por onde os visitantes podem circular e ver a obra com mais detalhes.

Os ingressos comprados online devem ser trocados pelas entradas ao espetáculo nas bilheterias que ficam dentro de algumas torres nas muralhas. A entrada do público também acontece através de umas baias que ficam próximas dali.

De fora é possível ver a parte superior de alguns cenários, mas nós não vamos mostrá-los. Você poderá ver tudo quando for ao espetáculo.

Os portões são abertos às 16:00 e a encenação começa às 18:00. Há quem reclame da excessiva aglomeração em frente aos portões de entrada, também dos deslocamentos entre um cenário e outro, afinal de contas, a cada ano há mais gente. O público pode atingir até 10 mil pessoas numa única apresentação.

O espetáculo da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, no distrito de Fazenda Nova, em Brejo da Madre de Deus, região agreste de Pernambuco, chega aos 50 anos cada vez mais poderoso.

A cada ano são implementadas melhorias técnicas. A iluminação, os efeitos de áudio e as interpretações dos atores garantem que aquela história que todo mundo já conhece, já sabe como termina, continue a se renovar e atrair mais atenção do público.

Como chegar e mais algumas dicas

A distância de Recife a Fazenda Nova é de 189 KM. A partir de João Pessoa, são 272.

Se tiver locado um carro ou vai com o seu próprio: Chegando a Recife, você deve percorrer a BR – 232 até Caruaru. Ali, você tem que entrar à direita na Rodovia Estadual PE – 104 e após cerca de 20 KM, entre na PE – 145. Não será difícil localizar essa entrada, pois uma grande escultura de granito marca o local. Nas proximidades da cidade teatro de Nova Jerusalém, há barreiras feitas pela Polícia Rodoviária que indicam as entradas de acesso aos estacionamentos.

Uma conhecida agência turística, a CVC, é parceira do evento e organiza viagens até a Fazenda Nova, saindo do Recife e também de Porto de Galinhas, em Ipojuca.

Na volta do espetáculo é que se deve ter paciência, pois a grande quantidade de veículos gera tráfego lento. Pode-se levar até mais de uma hora pra sair de Fazenda Nova.

Assim como em qualquer grande evento, o negócio é chegar cedo. Antes das 16:00, quando os portões são abertos, o estacionamento já está lotado, então não deixe pra fazer as coisas em cima da hora.

Se você não costuma ir a regiões de clima quente e seco e for sensível à variação de temperatura, leve algum casaco ou roupa semelhante. Logo que anoitece, a temperatura despenca de 30 para 19, 18 graus.

É permitido levar água em garrafa plástica. Não se pode entrar com lanches ou refeições. Há lanchonete dentro da cidade teatro.

Celulares são permitidos, já câmeras fotográficas não.

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