A rota do cangaço e a Grota do Angico em Poço Redondo – SE

Hoje no Reverso, a gente refaz os caminhos e visita os lugares onde se deram os últimos momentos de Lampião. Vamos percorrer a rota do cangaço e chegar até a Grota do Angico, em Poço Redondo, às margens do rio São Francisco.

Na noite de 27 de julho de 1938, canoas atopetadas de policiais, chamados de “volantes”, (existem autores que afirmam que foi um barco grande com todos os membros da polícia a bordo) e várias armas, inclusive metralhadoras muito modernas pra a época, embarcavam em Piranhas com destino a uma localidade próxima. A tarefa era exterminar o mais temível de todos os cangaceiros.

No comecinho da manhã do dia 28, a missão foi cumprida. Na Grota do Angico, a cerca de 800 metros da margem sergipana do rio S. Francisco, Lampião e Maria Bonita foram pegos de surpresa. O casal e mais nove membros do bando foram mortos.

Como adquirir seu ingresso e embarcar

O percurso de Piranhas até Poço Redondo é explorado por empresas de turismo que montam seus stands na rampa de acesso ao píer onde atracam os catamarãs.

De maneira geral, as pousadas de Piranhas já tem parcerias com as operadoras dos barcos e os ingressos pra os passeios podem ser adquiridos nas recepções dos estabelecimentos de hospedagem.

Quando estamos no período de baixa estação a procura é relativamente pequena. Na véspera do dia em que você pretende fazer o passeio, pode comunicar à administração da sua pousada ou hotel que eles mandam buscar a quantidade de ingressos necessária. No período de alta, o melhor é se informar sobre a disponibilidade dos passeios quando for fazer a reserva da hospedagem.

A rota do cangaço e a Grota do Angico em Poço Redondo - SE (1)

A rota do cangaço e a Grota do Angico em Poço Redondo - SE (1)

Os catamarãs partem em dois horários: 8:45 e 10:30 da manhã. É interessante que você já esteja próximo ao píer com uma certa antecedência. A partir do momento em que todos já estão acomodados a embarcação toma seu rumo.

Começa a viagem pela rota do cangaço

Algum tempo depois ouve-se, por caixas de som instaladas no barco, algumas informações sobre a viagem e uma demonstração de como usar os coletes salva-vidas, que ficam logo abaixo de cada banco.

Durante a viagem é permitido circular pelo catamarã. Podemos ver outras embarcações que estão indo ou voltando pra buscar passageiros, além de termos a oportunidade de apreciar melhor belíssimas vistas do leito do rio São Francisco.

Pra quem curte História, como nós aqui no Reverso, é impossível não pensar no cangaço e nos fatos que aconteceram em 1938…

Lampião estava sendo procurado há muitos anos. Sua captura era uma questão de Estado no governo de Getúlio Vargas. Uma fortuna era oferecida pra quem conseguisse apanhá-lo.

O “Rei do Cangaço” tinha noções sofisticadas de estratégia, usava táticas de guerrilha, sabia como despistar os inimigos numa perseguição na caatinga e mantinha uma rede de informantes pelos sertões.

Também fazia alianças com coronéis das regiões pode onde andava. O cangaceiro recebia proteção e, em troca, cuidava pra que os inimigos dos coronéis fossem eliminados. Entre outros “serviços sujos”.

Virgulino desafiava o poder constituído até com a sua imagem: Vez e outra, deixava-se fotografar e várias dessas fotos acabavam publicadas em jornais. Isso aumentava sua fama e deixava o governo furioso.

É claro que sua extensa lista de assassinatos, roubos e demais crimes já lhe valeriam a prisão e morte. Mas certamente o que fez Lampião ser tão temido e, ao mesmo tempo, caçado com ainda mais empenho pelas forças policiais foram as suas habilidades e sua influência.

Existe uma vasta literatura sobre o cangaço. Historiadores, jornalistas, autodidatas, inclusive ex-cangaceiros e antigos policiais das volantes lançaram seus livros sobre o assunto. Não há unanimidade quando se fala no “Rei do cangaço”. Antes, muito pelo contrário.

A emboscada

Lampião estava em Angico havia 2 dias. Ele nunca ficava esse tempo todo num esconderijo só. Permaneceu ali pois esperava por outros membros de seu bando. Conta-se que ele andava pensando em passar a chefia pra outro cangaceiro e fugir pra Goiás ou Minas, mudar de vida, virar fazendeiro.

Alguns de seus mais chegados teriam tentado adverti-lo de que a Grota do Angico era um local sem muita possibilidade de fugas em caso de combates. Tanto é que Corisco, um de seus homens de confiança, não gostava dali, dizia que “coito (esconderijo, abrigo) com uma entrada só é cova de defunto”.

Mas o fato é que Lampião continuava ali e pra piorar sua situação a voltante conseguiu pegar um de seus “coiteiros” (informantes) em Piranhas.

O destino de Virgulino estava selado.

O Cangaço Eco Parque

O barco começa a fazer manobras pra atracar no Cangaço Eco Parque. Não sem antes os guias darem mais instruções, dessa vez a quem pretende fazer a trilha pela mata até a Grota do Angico.

A caminhada é totalmente desaconselhável pra pessoas que tenham problemas cardiorrespiratórios ou que tenham feito cirurgias recentemente. Não se deve levar mochilas ou bolsas maiores e também é recomendado que você leve duas garrafas de água.

Outras sugestões, essas aqui mesmo do Reverso, é você usar uma camisa UV (térmica) e um bom chapéu largo, assim como um par de tênis bem confortável.

O Cangaço Eco Parque é um espaço muito agradável. Em nada lembra violência e tiroteios. Você percebe isso antes mesmo de pisar em terra firme, com a recepção dos funcionários vestidos como vaqueiros e cangaceiros.

Se você não vai fazer a caminhada, a prainha e os quiosques estão ao seu dispor: Há mesas com guarda-sóis e cadeiras bastante confortáveis às margens do rio S. Francisco. Também existe restaurante que serve tanto refeições sefl-service sem balança com preço fixo e pratos “A la carte”, como bebidas. Pra quem vai com dinheiro contado, é melhor se prevenir, pois os preços são lá meio salgados. São aceitos cartões.

Na prainha, há crianças, todas elas ficam com boias, só não é permitida a entrada dos menorezinhos com menos de 5 anos.

Adultos, lógico, também podem entrar na prainha do rio, com certos cuidados.

Há uma corda com sinalização do limite até onde se pode ficar, pois a profundidade do rio aumenta repentinamente.

A trilha até a Grota do Angico

As pessoas que desejam fazer a caminhada até a Grota do Angico são chamadas a um ponto do parque e lá recebem as últimas orientações.

Uma taxa extra é cobrada exclusivamente pra quem vai fazer a caminhada. Há um armário pra quem quiser guardar bolsas e demais pertences, também mediante pagamento de uma taxa. Os guias aconselham que você já deixe reservado o seu pedido de almoço, pois o “day use” do local é de 3 horas, muito desse tempo é gasto no percurso e na Grota.

A partir daí, seguimos por uma trilha no meio da caatinga.

São 1.600 metros de caminhada. Na verdade, o que faz com que ela fique mais complicada é o grande calor e o ar abafado, pois o terreno não é tão difícil assim: algumas subidas leves e pedregais que não são muito difíceis de passar. Com atenção, mantendo o ritmo constante, não se desconcentrando, sem pressa e ansiedade, o percurso será bem menos penoso.

Há algumas paradas durante a trilha, pra descansar e também pra apreciar alguns exemplares de plantas nativas da Caatinga.

A última parada antes da chegada à Grota é numa rocha onde ficava um poço. Um cangaceiro, o Amoroso, teria ido lá buscar água pra fazer café pro bando, se afastando cerca de 80 metros de onde estava Lampião.

A “tempestade de balas” na Grota do Angico

Amoroso deu de cara, meio que por acidente, com um policial que mandou-lhe um tiro. Essa teria sido, de forma não-intencional, a senha pra que o resto da volante começasse a ação.

Nessa altura os policiais já tinham uma posição bastante favorável, mesmo ainda não tendo fechado o cerco que havia sido planejado.

Mandaram uma tempestade de balas pra dentro da Grota.

Era uma hora em que estava amanhecendo e naturalmente, Lampião estava começando a acordar junto com o seu bando, alguns cangaceiros nem tinham despertado ainda.

O temível “Rei do Cangaço” foi morto sem sequer pegar na sua arma. Maria Bonita, alguns dizem que levou uns tiros mas ficou um tempo agonizando. Outros nove cangaceiros foram feridos de morte e alguns outros conseguiram fugir no meio daquele tiroteio todo.

Após os serviços concluídos, os policiais trataram de levar tudo o que lhes interessavam : armamentos, dinheiro e demais objetos de valor.

E, pra servir de tanto de prova de que realmente mataram Virgulino e seus homens, também pra exibição em locais públicos, cortaram as cabeças dos cangaceiros mortos.

A “Cova de defunto

Observando bem a Grota do Angico, a gente percebe claramente que se trata de um tipo de cova. Um lugar que poderia ser cercado… o tal “coito de uma só entrada”, como teria dito Corisco.

Há uma grande pedra onde ainda pode-se perceber marcas de balas. Conta-se que Maria Bonita estaria sentada durante a noite, na véspera da morte numa pedra larga, no canto direito da rocha no centro, que se assemelha a uma pequena gruta.

Havia barracas improvisadas com madeira e pano. É um lugar que realmente intriga, provoca.

Há a placa na com os nomes dos cangaceiros mortos, assinalando o lugar onde possivelmente Lampião estava ao morrer.

Há também cruzes, uma delas pra um soldado, de nome Adrião, que foi o único membro da volante que morreu em combate.

Outras cruzes são em memória de Lampião e dos seus cangaceiros. Isto, como quase tudo que diz respeito ao cangaço e ao seu “Rei”, é motivo de polêmica.

Bom, mas nós não fomos lá render homenagens a ninguém. Fomos ter um encontro com a história e cada um a interpreta de acordo com as suas convicções.

Saímos da Grota, fizemos o caminho de volta. Cerca de uma hora depois, chega o catamarã que nos leva de volta ao porto de Piranhas.

Chegando à pousada, o melhor mesmo é tomar um bom banho, botar as pernas pra cima e descansar da melhor maneira possível. A noite logo chega e ela é bem movimentada na pequena cidade de Piranhas.

Mas isso é assunto pro próximo post, na semana que vem.

+ infos: Cangaço Eco Parque

Esse post é dedicado a Neide, nossa guia e um verdadeiro anjo da guarda durante a caminhada pela mata na Rota do Cangaço.

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