O Museu Regional de Delmiro Gouveia, Alagoas

Delmiro Gouveia fica no sertão do estado de Alagoas, perto de Piranhas e de Canindé de São Francisco, em Sergipe. Assim como nas cidades vizinhas, lá também existem passeios pelo rio e a visita aos famosos cânions do Xingó.

Mas nós não vamos fazer passeios pelo rio S. Francisco hoje. Nesse post, visitaremos o Museu Regional de Delmiro Gouveia, e conheceremos um pouco do personagem que dá nome à cidade e sua atuação nos sertões alagoanos.

O Museu fica às margens da rodovia AL – 220, bem na saída do centro, pra quem vem da BR – 423, que vai até Paulo Afonso – BA, ou na entrada, pra quem tá vindo de Piranhas.

O espaço foi instalado na antiga estação ferroviária, que teve a sua pedra fundamental lançada em 1878, por ordem de D. Pedro II e inaugurada em 1882.

O personagem Delmiro

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia era um industrial cearense que chegou ao que é hoje a cidade, no ano de 1903.

Depois de ter tido várias suas brigas com chefes políticos do estado de Pernambuco, onde estava empreendendo, ele teve muitas perdas, inclusive uma de suas maiores realizações, o Derby, um arrojado centro comercial em Recife, sofreu várias perdas e resolveu ir embora para o sertão.

O povoado de Pedra era bem distante de tudo, mas, por outro lado, estava numa posição estratégica, entre Pernambuco, Sergipe e Bahia, nas proximidades do rio S. Francisco e com uma linha férrea já prontinha passando pela região.

Em alguns anos, Delmiro Gouveia conseguiu inaugurar uma fábrica de linhas e ali aconteceu algo um pouco semelhante ao que ocorreu em Paulista, PE: a população praticamente toda foi para a fábrica. Qualquer pessoa que fosse capaz de trabalhar, era trazida.

Também como em Pernambuco, foi construída uma vila operária e, como aproveitando o rio, Delmiro e seus técnicos fizeram algo inusitado para aquela época e lugar: construíram nada menos que Angiquinho, a segunda usina hidrelétrica da América do Sul (a primeira foi a de Marmelos, em Minas).

Isso pra que Pedra fosse autossuficiente em energia para as máquinas e também para a vila, que era uma das poucas localidades de todo o interior do Nordeste servida por energia elétrica e água encanada.

Conhecendo o Museu

Quem nos contou várias histórias, se gabando de ter lido vários livros e ter ido a esses e aqueles lugares relacionados à figura de Delmiro, foi o guia do museu, o Clécio, um jovem simpaticíssimo com quem conversamos longamente.

No pátio externo do museu podemos ver várias máquinas, são prensas que eram usadas na fábrica de linha, veículos que transportavam cargas etc…

Entre os equipamento que se destacam estão filtros para que retiravam água do S. Francisco para que ela fosse consumida e uma espécie de bomba que servia para limpar fossas. Em todos eles há placas com indicações do que eram, para quê serviam e de onde forma fabricados.

Nos fundos do terreno uma Maria Fumaça, exatamente como era nos tempos da estação da Pedra. Os trilhos colocados lá são réplicas de um pequeno trecho do caminho original.

Em frente ao edifício, a pedra fundamental da estação, a que foi lançada pelo imperador D. Pedro em 1878.

Clécio nos chama para conhecer o acervo da parte interna da antiga estação. Nós temos contato com reproduções de fotos onde aparece Delmiro e o ambiente das fábricas, tanto imagens de trabalhadores mais humildes, que faziam o trabalho com os teares, como dos técnicos e burocratas em seus escritórios.

Mais a diante, vemos instrumentos, como uma lanterna, uma bússola e no canto, um aparelho de telégrafo. Também podemos ver um projetor de filmes. Sim, por que Pedra tinha cinema… naquele tempo.

Sobre o que aconteceu com Delmiro, o personagem, e com a cidade

E quanto a aquela história de Delmiro Gouveia e sua fábrica no sertão, o que aconteceu com todas essas máquinas, instrumentos e documentos?

Clécio, sempre se referindo aos livros que leu, contou que o industrial cearense já estava vindo para aquele lugar de olho em outros empreendimentos.

Delmiro batia de frente com interesses de grandes comerciantes, indústrias estrangeiras que exportavam para o Brasil e políticos, aliás, foram brigas com políticos que resultaram na destruição do Derby.

Em Pedra, Delmiro pôde desenvolver seus negócios de uma maneira ideal para ele.

Alguns autores afirmam que a população de Pedra tinha suas vidas controladas sob rédea curta, dentro dos interesses da fábrica.

E aí as coisas começaram a se desenvolver mais rápido. Isso acabou fazendo com que os planos de Delmiro entrassem ainda mais em choque com os dos seus inimigos.

Consta que um grupo empresarial inglês insistia em comprar a fábrica, que políticos se negavam a dar apoio, que coronéis donos de terras da região não viam com bons olhos as empresas, entre várias outras coisas.

A situação culminou no assassinato do industrial, em 10 de outubro de 1917. Até onde se sabe, não se pôde identificar os responsáveis pelo crime. Há quem aponte os líderes políticos alagoanos, há quem atribua o ato à empresa inglesa Machine Cotton.

Os herdeiros de Delmiro finalmente venderam a fábrica para os ingleses e não levaram à frente nenhum outro empreendimento.

Pedra tornou-se oficialmente Delmiro Gouveia em 1945, porém, até hoje, é relativamente comum você ouvir pessoas se referirem ao município como “Pedra de Delmiro”, que aliás, só foi virar município autônomo mesmo em 1954.

Portanto, se você gosta de histórias, uma visita ao Museu de Delmiro Gouveia é uma boa opção para conhecer não só esse o personagem que deu nome e cara a cidade, bem como entender um pouco do contexto social e político da região.

O Museu Regional de Delmiro Gouveia abre de terça a domingo das 8 às 14 horas e a entrada é gratuita.

Obs: Não nos responsabilizamos por mudanças em horários e dias de funcionamento do espaço. Fomos como visitantes, não temos ligação nenhuma com a instituição nem com a prefeitura da cidade.

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